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A mobilização relâmpago


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Quando li o livro de Howard Rheingold chamado “Multidão inteligente: a próxima revolução”, editado no final de 2002, confidenciei ao meu umbigo: “O homem acertou outra vez”. Rheingold é leitura obrigatória para quem pesquisa os impactos das novas tecnologias na comunicação. Na década de 80 ele antecipou que os computadores pessoais seriam essenciais na vida moderna. Em dezembro do ano passado ele previu, como um oráculo, que as práticas sociais da cibercultura iriam mostrar formas criativas de apropriação das tecnologias digitais.

Vamos ver se consigo trocar em miúdos: o escritor profetizou o surgimento do que ele chamou de “flash mobs”. Anote o termo porque vai ser muito utilizado. Podemos traduzir por manifestações-relâmpago, apolíticas, onde pessoas que não se conhecem marcam, via internet, locais públicos para se reunir e se dispersar em seguida, causando estranheza e perplexidade aos que passam. Bingo! Virou onda mundial. E parece que a moda foi iniciada há uns dois meses apenas, em Nova York, quando uma pequena multidão entrou no 9º andar da loja Macy’s para apreciar tapetes à venda.

O primeiro “flash mobs” brasileiro aconteceu no dia 13 de agosto em São Paulo. Dezenas de pessoas tiraram os sapatos e bateram no chão enquanto atravessavam a faixa de pedestres no cruzamento da rua Augusta com a avenida Paulista. Em Brasília, no dia 23 de agosto último cerca de cem pessoas que seguiram a instrução divulgada pela internet, em frente ao shopping principal, vestidas de preto, enrolaram folhas de papel branco como lunetas e passaram a procurar estrelas no céu. Apontaram, procuraram, gritaram “olha!” Durou no máximo cinco minutos. Foram embora em seguida, sem dar explicações.

É a arte do nonsense. Significa romper com a mesmice, com a rotina, queimar simbolicamente a ordem da sociedade e recusar todos os valores que nos são impostos durante a vida. Significa deixar os outros perplexos por não entenderem como pessoas comuns podem quebrar a regra e procurar estrelas ao meio dia.

Depois de séculos de esvaziamento do debate político no espaço público (Habermas estaria errado ao crer que o homem racional poderia resolver por consenso seus problemas em praça pública), esse fenômeno que se espalha pelo mundo mostra a falência das atividades políticas clássicas e a emergência de novas formas de ação. As “flash mobs”, por serem reuniões de pessoas em torno de uma performance sem caráter político, revelam, por assim dizer, sua mais radical dimensão política. Hedonismo, micropolítica e nonsense, marcas da pós-modernidade, são aí evidentes. “Flash mobs” colocam em sinergia o espaço virtual das redes telemáticas e os espaços concretos da cidade. A rede é espaço de organização. A rua, espaço de encontro. É nessa relação entre organização virtual e ocupação hedonista, tribal e efêmera do espaço urbano que podemos revelar algumas características socioculturais do fenômeno.

Não é de hoje que estatísticas mostram a apatia nas cidades modernas. Onde a participação no jogo político e mesmo a ação de ir votar torna-se cada vez mais escassa. Em outras palavras, política já encheu. Ninguém está nem aí se o prefeito vai ser cassado ou não. Nessas manifestações o que interessa é estar-junto, aqui e agora, mesmo que de forma banal e efêmera. Esse é um dos espíritos da cibercultura.

Hoje, urbanistas esforçam-se para criar espaços coletivos em meio aos espaços públicos. As “flash mobs” podem ajudar nesse processo e parecem ser um sintoma do esvaziamento dos espaços públicos contemporâneos.

Fica a sugestão: crie um blog, espalhe para diversas pessoas que espalharão para outras tantas e tente ocupar os espaços públicos de Bauru. Sem slogans politiqueiros ou de ordem, amontoem-se, façam alguma coisa. Gritem, batam palmas, pulem, façam alguma coisa para a contrariar essa mesmice do espaço profano do urbano.

O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC.

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