Tornou-se um chavão dos integrantes do governo Lula dizer ser cedo demais para qualquer cobrança, rotulando de apressados todos aqueles que cobrem algum resultado concreto. A afirmação é falaciosa e pouco mais é que uma estratégia para ganhar tempo antes de se perceber o que realmente está acontecendo.
O PT jamais teve paciência com qualquer governo de outro partido, especializou-se em cobrar dos outros “tudo ao mesmo tempo agora” . Quando não acontecia, e na maioria das vezes não ocorria mesmo, porque as mudanças não se dão na velocidade da vontade, mas na morosidade da realidade, o PT atacava impiedosamente com críticas na maior parte das vezes injustas.
Agora o PT pede tempo para si próprio. Covarde ou interesseiramente muitos daqueles que iam às ruas protestar contra a mínima demora calam-se e aplaudem o companheiro Lula. A multidão de ativistas raivosos converte-se em claque comportada.
Esta mudança já demonstra que o PT pede às demais forças políticas e sociais aquilo que jamais deu aos adversários, um voto de confiança e o apoio nos primeiros momentos difíceis de planejamento, organização e fundamentação de um governo. Mas o governo do Brasil é importante demais para ser palco de vinganças partidárias. Assim é preciso ser mais responsável que o PT foi quando estava na oposição, entretanto, não se justifica por completo o pedido de “tempo” por parte de Lula.
Se é verdade que as graves mudanças que o Brasil precisa não podem ser operadas em um curto espaço de tempo, até porque Lula, tal como FHC, tem de enfrentar 500 anos de história, também é verdade que bastam alguns meses para se conhecer a essência e a tendência do governo. E este é um ponto no qual se deve estar preocupado.
O governo Lula tem sido vazio, tudo aquilo que faz parece desprovido de realidade, nenhuma preocupação com a sociedade tem sido demonstrada. Mesmo a reforma da Previdência, única grande ação destes seis meses, foi obtida não como deveria, através do diálogo, da persuasão, mas apenas por meio da implantação do terror dentro do próprio PT e da farta distribuição de cargos na base aliada.
Bastaram também estes poucos meses de governo para que o Palácio do Planalto se visse atolado em mordomias – quase todo dia uma é revelada. A ironia da história é que o próprio termo “mordomia” foi cunhado pelo assessor de imprensa de Lula, Ricardo Kotscho, nos velhos tempos, por conta de algumas dúzias de melões compradas pelo general de plantão.
A festa sem fim nos palácios da presidência, que já ultrapassa em muito os melões do general é, desde já, um forte indício de que algo vai muito mal na corte. Não é preciso esperar mais um ano ou dois para saber que um governo que fala nos palanques da fome e embriaga-se de mordomias privadamente está condenado a fracassar.
O autor, Ricardo Trípoli, é deputado estadual e presidente da Comissão de Constituição e Justiça da Assembléia Legislativa.