Cultura

Rasi vê Bauru sem bairrismo

Gustavo Cândido
| Tempo de leitura: 3 min

“Eu, Minhas Tias...” é uma coletânea dos textos que foram publicados entre 1997 e 2002 pelo dramaturgo. Ele já havia começado o trabalho de escolha do material ao lado de Anna Accioly quando morreu, vítima do câncer contra o qual lutava há algum tempo. A amiga completou a seleção, que se divide em três partes: “Mauro Rasi Por Mauro Rasi”, “As Mulheres da Minha Vida” e “Mauro etc.”.

Apesar de tratar dos assuntos mais variados em seus textos, Rasi, até por conta da história com as famosas tias, nunca deixa de lado sua cidade natal, que está presente - em citações ou em breve lembranças - na grande maioria das crônicas, algumas vezes, no título. O que não quer dizer que ele trate Bauru de uma maneira bairrista. Ao contrário, é nesse pequeno detalhe que reside o seu brilho.

Ao não se ufanar de sua relação com a cidade em sua obra, aparentemente Rasi parece desprezar a origem interiorana e os costumes provincianos que Bauru - apesar não ser mais uma cidade pequena - ainda conserva de certa maneira. Mas na verdade, ele não despreza, apenas tem coragem de apontar defeitos, pôr o dedo na ferida (de leve, com uma fina ironia) sem se envergonhar deles, o que é muito mais nobre e corajoso.

Ou seja, por não fazer uma propaganda descarada, acaba valorizando ainda mais as peculiaridades (por mais provincianas que elas sejam) da sua cidade natal e de seus moradores. Um ponto com o qual todos se identificam.

“Bauru, a melhor (!?) cidade do mundo” talvez seja a crônica que melhor exemplifique essa característica. Nela, Rasi coloca uma carta de seu pai na qual o senhor Oswaldo, o Vado, lhe pede deixe de citar seus familiares como referência em seus trabalhos. A intenção do pai era evitar situações “vexatórias” perante a sociedade bauruense. Um medo que ele adquiriu ao ler as primeiras matérias sobre “Pérola”, antes da peça chegar a Bauru.

Com todo respeito e admiração que tinha por Vado (de quem mais tarde ele adaptaria “O Crime do Doutor Alvarenga” e a quem dedicou outras crônicas que estão no livro), o dramaturgo apenas lembra que, assim que a peça se tornou um sucesso, o pai chegou a assisti-la uma dúzia de vezes. E sentencia sua moral da história toda: “Tememos expor nossas mazelas e vivemos ocultando-as. Entretanto para que sejamos capazes de transformar algo (ou a nós mesmos), é fundamental que olhemos para essa coisa como realmente é. Só assim seremos capazes de transformar Bauru e o Brasil”. É genial.

Como se não bastasse o seu ponto de vista afiado e lúcido - coisa de quem conheceu o mundo - sobre suas próprias origens, Rasi demonstra um humor deliciosamente inteligente, cheio de referências literárias, cinematográficas e históricas que só valorizam o texto e mostram quanta cultura levava consigo.

A publicação do livro vem reparar um “erro” involuntário da história de Rasi com Bauru. O jornal O Globo raramente é visto por estes lados do Estado de São Paulo, o que impossibilitou a leitura de sua coluna por seus conterrâneos durante todos esses anos. Com certeza, Bauru teria se divertido muito (e se orgulhado ainda mais do dramaturgo) se, semalmente, pudesse se ler num jornal de circulação tão grande.

No final de julho Rasi foi homenageado se tornando nome de um espaço na Universidade do Sagrado Coração (USC), uma homenagem justíssima. Que venham outras.

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