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Orgulho ferroviário


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A Rede Ferroviária Federal, para ser privatizada, foi dividida em trechos que tiveram sortes diferentes. O que compreendeu a Noroeste e a Fepasa teve a pior sorte. Os atuais exploradores, e aqui o termo deve ser empregado no seu mais amplo sentido, vêm acabando com tudo. A via férrea está totalmente destruída, com os dormentes podres e os trilhos gastos e torcidos, e o material rodante, no último estado de degradação. Há notícias de que o trecho Campo Grande-Ponta Porã está desativado e o trecho Campo Grande-Corumbá será reestatizado. O patrimônio que ficou com a Rede Federal - locomotivas, vagões e oficinas - está inteiramente abandonado, corroído pela ferrugem e saqueado. Ficamos com o mico. Outro destino teve o trecho que compreende os estados do Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul, que foi adquirido pela GP Investimento, ligada ao empresário Jorge Paulo Lemann, ex-dono do banco Garantia, que ao trecho brasileiro anexou outro maior, da Argentina, formando a ALL – América Latina Logística, com sede em Curitiba. Seu presidente, um dos sócios, Alexandre Behring, vem imprimindo a ela o estilo de gestão da AmBev, controladora da Skol, Brahma e Antárctica, do mesmo grupo. Ao assumir a presidência, tempos depois da aquisição, Behring percorreu os mais de 15 mil quilômetros, em locomotivas, com uniforme de maquinista e dormindo nos alojamentos junto com os outros ferroviários, para conhecer tanto o patrimônio físico como o pessoal. Embora tenha tido a ingrata tarefa de dispensar milhares de funcionários, transformou a modorrenta e sucateada companhia numa empresa lucrativa. De 1997 para 2002 elevou o faturamento de R$ 195 mi para R$ 811 mi e o lucro, de R$ 15 mi para R$ 160 mi; aumentou a produtividade e diminuiu os acidentes. Em 2001 fez fusão com a empresa de transporte rodoviário Delara, com uma frota de 3.000 caminhões, para estender os seus serviços a outros pontos do país. (Exame nº 798)

As ferrovias foram as primeiras empresas mais bem organizadas do mundo. Inventada em 1814, na Inglaterra, depois de vencer a reação desfavorável da população, que estranhou o novo tipo de transporte, a ferrovia teve a sua efetivação em 1830, ligando Liverpool a Manchester, região industrializada da Inglaterra. O sucesso foi tanto que em pouco tempo outros países construíram suas ferrovias – Bélgica, França, Estados Unidos. Aqui no Brasil também não demorou muito, pois em 1854 Mauá construiu nossa primeira estrada de ferro, ligando o Rio de Janeiro à raiz da serra de Petrópolis. Antes do final do século XIX, além da ligação Rio, São Paulo, Juiz de Fora, Belo Horizonte, Santos, também Bauru recebia os seus benefícios. Além de agente de desenvolvimento econômico e civilizador, interligando regiões que iam sendo desbravadas, as ferrovias são a origem da moderna organização empresarial. Foram modelos de planejamento, organização e controle. Suas oficinas foram os primeiros parques industriais, como foram as oficinas da Noroeste para Bauru. A formação racional de operários e técnicos teve seu início nas escolas ferroviárias, que deram origem ao Senai. A administração científica veio para o Brasil na década de 1930 com a instalação dos laboratórios de Psicotécnica nas Ferrovias. Nelas também começaram os primeiros cursos de racionalização do trabalho.

Tudo isso criou uma cultura ferroviária, que reluta em deixar-se extinguir, apesar do massacre sofrido. Prova emocionante disso está no depoimento do presidente da ALL, que ao verificar in-loco um descarrilamento em Ipiranga, a duas horas de Curitiba, e ver a coragem e o esforço que os ferroviários faziam para salvar a carga de grãos e álcool, arriscando a própria vida, e lembrando o estado em que a companhia havia chegado, fez o seguinte diagnóstico: “Os ferroviários sentiam vergonha da empresa mas tinham orgulho da ferrovia”. Que o digam os nossos antigos e atuais ferroviários. (O autor, Pedro Grava Zanotelli, é administrador e ex-diretor da Faculdade de Ciências Econômicas de Bauru)

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