Política

Sessão revive clima de disputa pelo poder

Nélson Gonçalves
| Tempo de leitura: 4 min

A sessão da Câmara Municipal de Bauru de ontem repetiu a tensão, o clima e a divisão de grupos políticos na disputa pelo poder, a exemplo do que ocorreu no passado. Agora são diferentes a denúncia, uma parte dos personagens e as naturais peculiaridades do caso que culminou, desta vez, com o arquivamento da Comissão Processante (CP).

Entre as diferenças, uma relevante é que é a primeira vez que o Poder Legislativo decide, através dos votos do plenário, pelo arquivamento de um processo iniciado para analisar a conduta do chefe do Executivo. Nilson Costa (PTB) foi denunciado por omissão, negligência e improbidade administrativa por irregularidades levantadas em compra de feijão, milho verde em lata e bolacha.

Em 1998, Nilson foi beneficiário da decisão da Câmara que cassou Izzo Filho. Ele era vice-prefeito. Agora, Nilson precisou de nove votos para não correr o mesmo risco. Outro aspecto é que parte dos acusadores do atual prefeito presentes à Câmara ontem defendia a manutenção do governo em 1998.

Da mesma forma, muitos dos que ontem torciam para Nilson permanecer no cargo são do próprio governo, ou simpatizantes. Esse quadro também existiu em 1998.

Assim, os grupos pró e contra a cassação dividiram em partes iguais as cerca de 60 cadeiras da galeria. Igual ao episódio de agosto de 1998 (Izzo Filho), a Câmara teve que distribuir senhas para acomodar a situação.

Muito barulho

Do lado de fora do prédio, os “nilsistas” eram em maior número. Contudo, a maioria dos manifestantes pró-governo é do movimento estudantil secundarista. Aliás, parte do movimento estudantil defendeu a cassação em 1998.

Outra peculiaridade é que, agora, um segmento com atividade junto aos estudantes de segundo grau mantém laços políticos com o PPS. Nilson Costa estava no partido até maio passado.

Além disso, entre os estudantes que empunhavam as faixas de apoio a Nilson, ontem, na avenida Rodrigues Alves, estavam integrantes da própria juventude do PPS. Outro grupo tem relações estreitas com o PC do B e a vereadora Majô Jandreice (PC do B). A parlamentar foi autora do relatório que pediu o arquivamento do processo de ontem.

E os jovens fizeram muito barulho, seja com um caminhão de som dotado de boa potência (similar a um trio elétrico), seja através de uma bateria de instrumentos de percussão improvisada que não parou de bater no couro durante toda a tarde.

A batucada, provavelmente reunida de última hora, produziu um som sem harmonia rítmica, mas o suficiente para atrapalhar o andamento da sessão. Em alguns momentos o barulho foi exagerado.

Tanto que, do outro lado, ao fundo da praça Dom Pedro II, ainda no Centro, adolescentes recolhidos na Vara de Infância e Juventude protestaram em vão pelas brechas das janelas.

Por sinal, a inquietação e a reação, própria dos jovens, ocorreu da avenida para as janelas e das frestas das janelas dos que estavam recolhidos, excluídos, para a rua.

A diferença de interpretação e reação, neste caso, esteve condicionada ao olhar sobre o lado de quem via a questão. Aliás, pura repetição, como em um processo político.

Os privados da liberdade social pareciam experimentar, ainda que sem saber, o desconforto da reação vinda dos adolescentes “politizados” que estavam na avenida. Mas estes, pelo menos, puderam gritar o suficiente para ser ouvidos.

Por sua vez, a Polícia Militar manteve a ordem usando a estratégia da tolerância, com poucas intervenções em nome da disciplina. Sob o argumento da democracia e da manifestação em ato político, tolerar incluiu aceitar que o caminhão de som ficasse estacionado em plena avenida Rodrigues Alves, em frente à Câmara. A lei de trânsito não permite.

A intervenção da autoridade policial que exigiu rigor ocorreu somente ao final da votação que arquivou a denúncia. O grupo “Cassação já” protestou com palavras de ordem e ofensas.

Neste momento, a sessão foi interrompida e os PMs foram chamados a esvaziar a galeria para que a pauta de votação dos demais processos pudesse ser concluída.

Às 19 horas, havia poucas pessoas no interior do prédio e nas ruas. Restou aos servidores da zeladoria do Legislativo iniciar o trabalho de limpeza, retirando faixas e papéis.

O serviço foi rápido. Eles estão se acostumando com tarefas parecidas, nos últimos anos. E sabem, desde já, que esta “faxina política” vai se repetir.

A Comissão Processante que analisa compras de carne para a merenda escolar, por exemplo, está entrando na fase final e será votada até o final deste mês. Falta apenas o relatório final e a data do julgamento.

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