Torna-se cada vez mais clara, neste mundo absurdo em que estamos vivendo, a existência espúria do que temos designado como “nação pluriestatal” que, disseminada praticamente no seio de todas as nações, lhes exaure as energias e mais nobres tendências, em favor da satisfação de um insaciável apetite por mais e mais riquezas. Compõem-na todos os que, profundamente equivocados acerca da aspiração mais real e mais profunda das criaturas humanas, que é a felicidade, confundida por eles com a posse de bens materiais, como se ela, felicidade, fosse uma coisa, não uma sensação. Não se detêm esses adoradores de um estranhíssimo “deus” Mercado, na observação de que jamais alguém ouviu dizer que estava de posse de tantos ou quantos quilos de felicidade, lutando por aumentá-los até alcançarem um número que não saberiam definir, de toneladas dela. O que ouvem, mas parecem não entender, é que as pessoas podem sentir-se mais ou menos felizes - o que patenteia que a buscada felicidade é uma sensação. E que esta é alcançável tendo como componentes materiais apenas o que é indispensável à existência saudável do corpo e do espírito. Além disso, o resto são superfluidades, do que faz prova a existência de seres felizes entre indígenas que não têm nenhuma delas, tão freqüentemente transformadas em símbolos que, por indução propagandística, são erigidos em metas a serem alcançadas a qualquer custo. Qualquer pesquisa pode evidenciar que, entre os paupérrimos indígenas ocorrem muito menos casos de infartos - se é que ocorrem - do que entre os diligentes e frenéticos servidores do estranho “deus” a que já aludimos. Não que estejamos querendo significar que todos deveríamos viver despojados das conquistas do progresso científico e tecnológico. O que queremos significar, é que eles devem ser buscados com equilíbrio, conscientes todos de que o dinheiro e os bens que ele pode proporcionar, podem contribuir para a felicidade como servos, não como senhores.
O tema pode parecer irrelevante; se o leitor, porém, parar para refletir, verificará que, longe de irrelevante, ele é fundamental para o início da correção de rumos de um processo civilizatório, vitimado pela febre da cobiça desmedida e das conseqüências terríveis a que ela pode levar, tanto no âmbito das relações interpessoais, quanto no âmbito do relacionamento entre os povos e as nações em que eles se constituem - todas elas, no momento, vulneradas pela de caráter pluriestatal da que se compõe da legião dos adoradores do Mercado dentre os quais, os que, realmente o comandam e conduzem, eles próprios vitimados pela febre da cobiça, necessitam e tentam impor a todos, até pela força como começam a fazer agora, uma ordem político-institucional, fundada na confusão entre liberdade e licenciosidade, de modo a que, em nome daquela, disseminem-se os vícios e alastre-se a corrupção, de maneira a estiolar a capacidade de identificar a realidade e reagir contra ela. Por isso, não há exagero em dizer-se que o “deus” Mercado, tem como indispensável sacerdotisa o que denominam de democracia, embora não seja senão uma forma degradada do verdadeiro ideal democrático o qual, nos termos da nossa cultura, exige a aceitação de valores eternos e insubstituíveis, independentes das preferências de maiorias volúveis de legisladores e governantes, manipuláveis pelos que, nos termos da sacerdotisa a que nos referimos, podem fazê-los o que passam a ser, bem como condicionar a índole das decisões que adotam. Por isso, há cada vez mais miseráveis no mundo onde, cada vez mais claramente campeia a injustiça. A esperança é que, tendo exagerado na dose, os reais senhores do “deus” Mercado estão chegando ao fim de linha e poderão sentir as conseqüências do desrespeito aos valores que regem insubstituivelmente, a harmonia do mundo. Parece valer a pena refletir.
O autor, Jorge Boaventura, é colaborador do JC.