O governo vem alardeando que a pressão sobre a inflação já está superada e que chegou o momento de liberar mais a economia à medida que os instrumentos de controle de preços foram eficazes: a combinação de forte ajuste fiscal com política monetária apertada. Isso pode ser verificado nos índices de inflação que apontaram deflação (inflação negativa) ou percentuais muito próximos de zero.
Por outro lado, o consumidor sente a perda de seu poder de compra. Observem que aparentemente há conflitos entre as duas colocações, contudo, ambas são verdadeiras. Se analisarmos o hoje, o agora, a conclusão é que muitos produtos observaram queda de preços. Tiveram queda comparada com que período? Aí que vem a explicação: sobre o mês passado (ou no máximo sobre dois a três meses). Isso quer dizer que, se alguns preços cresceram muito, agora estão em queda.
A perda do poder de compra do grosso da população se explica pela relação desproporcional entre reajuste da renda e aumentos de preços. Muitos produtos subiram em quatorze meses o que não subiram nos últimos três ou quatro anos. Vejam alguns exemplos (aumentos de junho de 2002 até agosto de 2003 – fonte FIPE): pão francês + 35%; leite em pó + 32%; papel higiênico + 23%; açúcar + 60%; macarrão + 38%; óleo de soja + 38%; detergente + 22%; manteiga + 49%. As quedas ficaram concentradas em produtos de tecnologia, como preços das impressoras com queda de 10%; aparelho celular com queda de 11%; microcomputador com queda de 13%.
A renda média do trabalhador caiu cerca de 13% em doze meses apurados pelo IBGE. É fácil entender essa lógica: os preços caem agora e o poder de compra não se elevou na mesma proporção dos aumentos dos últimos meses. O pior é que dificilmente os preços voltarão aos patamares do ano passado. A conclusão: estamos mais pobres. Evidentemente que não quero evidenciar somente o lado ruim da questão, afinal o indicativo é que o pior já passou, entretanto, se pensamos em inclusão social, não é possível aceitar essa relação perversa entre renda e preços. Como o bolo é um só se alguém está ganhando de mais, alguém está ganhando de menos. Os indicadores econômicos e sociais, entre eles o nível de desemprego, índice de desenvolvimento humano; distribuição de renda; indicarão a dimensão da política econômica adotada no Brasil.
O autor, Reinaldo Cafeo, é Economista, Mestre em Comunicação, Vice-diretor da Faculdade de Ciências Econômicas de Bauru e Delegado do CORECON.