Regional

Projeto avaliará efeitos das queimadas

Michelle Roxo
| Tempo de leitura: 3 min

Botucatu – O Laboratório de Geoprocessamento da Faculdade de Medicina da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Botucatu (100 quilômetros a Sudeste de Bauru) quer realizar um levantamento sobre a distribuição espacial das doenças respiratórias na região de São Manuel, no ano de 2003.

O projeto, ainda em fase de aprovação, deve confrontar os locais onde foram registradas essas doenças com pontos de ocorrências de queimadas. O objetivo é disponibilizar os dados a partir de demonstrações gráficas, estabelecendo uma relação de causa e efeito entre a poluição provocada pela queima dos canaviais e os registros de problemas respiratórios de pessoas que vivem próxima a esses locais.

Segundo o coordenador do laboratório e chefe do Departamento de Saúde Pública da Unesp, Ricardo Cordeiro, o município de São Manuel foi escolhido, inicialmente, por ser atingido pelas queimadas e pelo fato de ser vizinho de Botucatu. Entretanto, o projeto ainda está em estágio de negociação com o poder público municipal.

Se autorizado o estudo, as informações devem ser levantadas nas unidades de saúde de São Manuel, a partir de dados de pacientes que foram atendidos por queixas respiratórias.

“Por enquanto, nós ainda estamos na fase de contato com os responsáveis pela rede para a solicitação das informações”, afirma Cordeiro. “Entretanto, eu não vejo nenhuma dificuldade em obter isso porque é de interesse da saúde pública”, avalia.

Cordeiro explica que o laboratório, inaugurado recentemente, utiliza os recursos de geoprocessamento para analisar a distribuição espacial dos processos de adoecimento. “Dentro dessa idéia, nós queremos mapear o local de residência dos moradores de São Manuel que procuraram o serviço de saúde por queixa respiratória em 2003”, explica.

Danos

De acordo com Cordeiro, a fumaça produzida pelas queimadas é formada por partículas que desencadeiam quadros respiratórios alérgicos, como bronquite, rinite e asma. Além disso, segundo ele, estudos já demonstraram que todo o processo de queima produz substâncias potencialmente cancerígenas. “Isso existe no processo de queimada. Mas em que extensão isso se dá, qual é a profundidade do dano, a gente não tem ainda clareza”, afirma.

Em relação a doenças respiratórias, de acordo com a médica epidemiologista do Departamento de Saúde Pública da faculdade e coordenadora do projeto Maria Rita Cordeiro, possivelmente em épocas de queimadas exista um aumento na procura de pacientes aos prontos-socorros. Os grupos mais atingidos seriam os idosos e crianças.

Na opinião de Cordeiro, ao identificar o potencial de danos à saúde provocados pelas queimadas é possível ter argumentos para discutir novas técnicas de colheita e políticas contra esse procedimento. “Esse dado científico pode ser utilizado do ponto de vista da argumentação jurídica para controlar as queimadas mostrando que elas são nocivas”, afirma.

Segundo dados da prefeitura de São Manuel, o plantio de cana-de-açúcar é a principal atividade agrícola do município. Esse também é o caso de cidades como Jaú, onde o problema das queimadas virou motivo de intervenção do Ministério Público. Dentro desse contexto, segundo o professor, não está descartada a possibilidade do projeto, posteriormente, se estender para outros municípios.

Prática

Para facilitar a colheita, é uma prática comum atear fogo nos canaviais, antes da ação dos cortadores. O fim das queimadas está previsto em uma lei estadual aprovada em setembro de 2002. O texto determina que a mecanização da colheita precisa ser concluída até 2031.

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Ações

Além do projeto de mapeamento das doenças respiratórias, o Laboratório de Geoprocessamento da Unesp de Botucatu está realizando um levantamento da distribuição espacial e das causas de mortes em Botucatu, registradas nos últimos 13 anos.

A pesquisa, que deve ser concluída em novembro, vai localizar os pontos de maior incidência de doenças e as causas de mortes. A partir dos resultados, o objetivo é estabelecer políticas de prevenção no município.

Para aprender as técnicas de geoprocessamento e aplicá-las na área da saúde pública, parte da equipe do laboratório, formada por professores e alunos, fizeram um curso no Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).

No local, até o momento, foram investidos cerca de R$ 50 mil, entre recursos da Fapesp e da Faculdade de Medicina de Botucatu.

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