Ela tem apenas 17 anos, mas já acumula quatro anos de dedicação aos palcos. A atriz Larissa Marques começou a fazer teatro despretensiosamente, na escola, e logo percebeu que ali estaria o seu futuro. Hoje, ela brilha como uma das principais promessas das artes bauruenses, destacando-se a cada papel que interpreta.
Entre os seus planos, estão a faculdade de artes cênicas, que pretende ingressar no ano que vem, e a interpretação de um texto de Nelson Rodrigues, que ela classifica como um importante passo na carreira. “É uma coisa que vai exigir um estudo maior, será um desafio”, salienta.
Recentemente, dois diretores da Rede Globo estiveram em Bauru assistindo a uma peça na qual ela atuava e gostaram do seu trabalho, criando a possibilidade de um teste para uma das próximas novelas da emissora.
Simples, determinada e segura do que quer, Larissa recebeu a equipe do Caderno Ser em sua casa para a seguinte entrevista:
Jornal da Cidade - Como foi que você se envolveu com o teatro? Larissa Marques - Eu era bem pequena, devia ter uns 10, 11 anos. Começou a ter teatro na escola, com uma diretora que vinha de (São José do) Rio Preto para nos ensinar e eu fui fazer. Morria de vergonha, ficava sem graça, não sabia que tinha o dom. Era tímida para me apresentar em público, não com os amigos e com a família. Eu fui, a diretora gostou e eu fiquei dois anos trabalhando com ela.
JC - Como você conheceu o diretor Paulo Neves? Larissa - Foi através de uma amiga minha, que tinha falado do trabalho dele. Eu liguei para ele e perguntei o que estava fazendo. Na época, ele estava montando o espetáculo que se chamava “500 anos o que?”. Só que já tinha o elenco pronto. Eu disse que queria fazer uma oficina com ele e ele me disse para ir lá. O grupo ensaiava no Teatro Municipal. Por incrível que pareça, a menina que fazia a personagem principal da peça - ela tinha até ganho alguns prêmios num festival que teve aqui - saiu. Aí, eu entrei no lugar dela. Daí para a frente, estou estudando com o Paulo Neves.
JC - De lá para cá, quantas peças você já fez com ele? Larissa - Nós apresentamos umas sete peças. Eu devo ter ensaiado mais umas três.
JC - Hoje, você pode dizer que o seu sonho realmente é o teatro? Larissa - É sim, quero me profissionalizar. Vou prestar artes cênicas este ano.
JC - Tem muita gente na sua idade que ainda está pensando o que vai fazer na faculdade... Larissa - Eu já me decidi. Faz mais ou menos uns cinco anos que eu tenho isso na cabeça.
JC - Qual a sua preferência: teatro, cinema ou tevê? Larissa - Teatro. São dois mundos muito diferentes. Teatro é tudo efêmero: aconteceu, acabou. Eu acho que é mais verdadeiro que a televisão. Não que eu não tenha intenção de fazer televisão, mas eu acho que, pelo amor, pela paixão, eu iria pelo teatro. Televisão seria mais pelo dinheiro.
JC - Qual a visão que você tem do mundo das artes além dos limites de Bauru? Larissa - Em Bauru, já é difícil viver dessa profissão, porque a gente não tem muito apoio. Não que não seja valorizada, mas é complicado. Fora daqui, eu sei que eu vou penar muito. É um mercado que está ficando cada vez mais concorrido. E é extremamente ilusório. Tem gente que pensa que vai fazer teatro, no outro dia, estará na televisão, vem o sucesso e pronto. E o sucesso não é assim. Eu tenho um pouco de medo da carreira, mas a minha vontade, a minha paixão pelo teatro, supera esse medo.
JC - Tem alguma peça que você sonha fazer, que está na sua lista das preferidas? Larissa - Eu adoro Nelson Rodrigues. Tenho muita vontade de interpretar um texto dele.
JC - Nossa, mas você escolheu um bem complexo, hein? Larissa - É, realmente, ele é bem forte, difícil. Mas justamente por isso me atrai. É uma coisa que vai exigir um estudo, é um desafio maior para compor o personagem.
JC - E na tevê, tem alguma coisa que chama a sua atenção, que você tenha vontade de fazer? Larissa - Sempre tem umas coisas boas, que se destacam. Como, por exemplo, minisséries bem-feitas, até mesmo novela, quando eu vejo que é um trabalho legal, eu tenho vontade de fazer.
JC - Como você imagina que será sua vida quando estiver com 25 anos? Larissa - Eu me imagino em São Paulo, fazendo teatro, com (o diretor) Antunes Filho. Depois que a gente foi para São Paulo, há uns meses, assistir ao espetáculo dele (Prêt-à-Porter), eu pensei: “Eu vou fazer Antunes Filho”. Como as coisas lá demoram um pouco para acontecer, eu acho que, quando tiver essa idade, poderei estar na companhia dele.
JC - E a sua família, como reage ao fato de você escolher a profissão de atriz? Larissa - Meu pai e minha mãe sempre me apoiaram. Eles nunca me forçaram a fazer nada, mas sempre estiveram do meu lado. Até me garantiram, dizendo que, se eu precisar financeiramente, eles me bancam. Eles dizem que o importante é ver o sorriso no meu rosto. Para mim, ouvir isso foi uma das melhores coisas que aconteceu na minha vida. Do restante da família, acho que não tenho tanto esse apoio. As pessoas têm um pouco de receio dessa profissão, acham que teatro é coisa de bicho-grilo, que não vou ganhar dinheiro. Falam: “vai fazer direito, medicina...”.
JC - Quanto tempo da sua vida, atualmente, você dedica ao teatro? Larissa - Como eu vou prestar vestibular nessa área, tenho que ler muita coisa. Eu divido o tempo assim: metade do dia, eu me dedico a esses livros; a outra metade eu estudo as matérias da escola. No sábado é que eu vou mesmo para a aula de teatro.
JC - Que história é essa que vieram dois diretores da Rede Globo aqui... Larissa - ... (risos). Eu também não entendi direito... O Paulo (Neves) comentou comigo. A gente fez dois espetáculos agora - o Apatar e o A perseguição. Eles assistiram e gostaram muito. Disseram que o nível estava muito bom e que era para o Paulo escolher duas pessoas. Não sei até que ponto ele vai me escolher ou não... Quem for chamado, vai fazer uns testes para ver se entra na próxima novela das 18h. Não se sabe ainda quem vai nem quando vai. Foi muito importante os diretores terem vindo a Bauru. Isso é raro. Normalmente, eles ficam mais no eixo São Paulo-Rio.
JC - Além de saber interpretar, para ser atriz tem que ter um algo mais? Larissa - Hoje é muito fácil falar que é atriz. Tem muita menina que acha que basta decorar um texto e subir no palco. Se for assim, qualquer um faz. Tem que ler muito. Eu já li até filosofia de Sartre, coisa que eu nunca achei que fosse ler. Li também sobre o hinduísmo. Não basta ler somente o texto do espetáculo. Tem que entender toda a história do teatro, qual é o seu papel ali, o que você está fazendo em cima do palco. Eu leio de tudo: Sábato Magaldi, (William) Shakespeare, Nelson (Rodrigues), entre outros.
JC - Você já fez algum “laboratório” para compor um personagem? Larissa - Às vezes, eu vou a um restaurante e fico observando as pessoas comerem. Talvez um dia eu precise disso no palco, saber como cada pessoa se comporta ao comer... eu nunca cheguei e entrevistei alguém com a finalidade de compor um personagem.
JC - Qual o seu ator e atriz preferido? Larissa - Eu gosto muito do Renato Borghi, que é um ator de teatro, e do Luiz Mello; atriz, Fernanda Montenegro, lógico, Camila Morgado e a Arietha Corrêa.