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Tirar visto para EUA é "jogo de azar"

Da Redação
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A dificuldade em conseguir visto de entrada legal para os Estados Unidos é notória. Turistas, estudantes, trabalhadores, imigrantes, todos têm de passar por uma criteriosa averiguação por parte do Consulado Americano para colocar os pés em solo ianque. Depois do atentado em 11 de setembro de 2001, a conclusão a que chegam agentes de turismo, organizadores de intercâmbio e turistas é de que esta peneira, que muitas vezes se assemelha mais a um jogo de azar, está cada vez mais difícil.

Atualmente, existe um tipo distinto de visto para cada situação. Marcos Ulisses Quaggio Mendes, diretor de uma agência de turismo e representante em Bauru de um dos maiores programas de intercâmbio do País, explica que uma convenção mundial aponta que a validade do visto para turista é de apenas 90 dias.

Para cursos de até quatro semanas, normalmente o viajante é autorizado como turista. No caso de cursos mais longos, há permissões de seis meses e um ano. “Os estudantes de longa permanência, que vão fazer mestrado ou doutorado, por exemplo, recebem visto superior a um ano”, explica Mendes.

Também existem permissões vinculadas a trabalho. É o caso de empregos sazonais, mais ligados a hotelaria, colônias de férias e parques nacionais ou de diversão. “Estas vagas aparecem mais no período de verão, para universitários entre 18 e 28 anos”, diz.

Há ainda o visto ligado ao trabalho legal, vinculado ao período em que o imigrante permanece no emprego e que pode ser renovado por até três anos. “Para o trabalho legal, eles chamam pessoas de até 40 anos de idade para as vagas não preenchidas, empregos que os americanos não querem porque a remuneração é baixa, de US$ 6 a US$ 8 a hora”, comenta Mendes.

Com o atentado e o medo dos americanos de novas invasões, é exigido atualmente que o viajante apresente-se pessoalmente na sede do Consulado para pedir o visto. “Eles querem olhar na sua cara. Sempre foram chatos, mas dependia do entrevistador que atendia. Atualmente eles estão muito mais rigorosos”, declara Mendes. O atendimento é marcado por telefone e somente 150 pessoas são atendidas por dia. O passaporte é devolvido pelo Correio, em até cinco dias, com a resposta do pedido. “Você recebe em casa o visto ou uma cartinha polida dizendo que infelizmente não foi possível...”, conta.

Entre as comprovações necessárias, estão uma renda compatível com a viagem e um vínculo no Brasil que obrigue o viajante a retornar. Atualmente, o Consulado também vem exigindo a apresentação de conta de telefone. Mendes comenta que quem deseja ir para trabalhar e se estabelecer nos EUA começa a fazer contato com conhecidos que moram lá. “Eles também checam o saldo médio no banco, para saber se você tem condições de ir. Mas se o cara tem 32 anos, não estuda, não trabalha, não tem vínculos, não vai conseguir. Isso prova que ele está deslocado no nosso mercado e quer tentar a vida lá”, aponta.

Nos 16 anos em que trabalha com turismo, Mendes diz que já viu casos em que o visto foi veementemente negado para turistas e aprovado para emigrantes procurando trabalho. “Já tive o caso de negarem o visto para uma menina de 6 anos que estava indo para a Disney com os tios, os primos e o avô. O avô deu a viagem de presente para ela, e como os pais não comprovaram renda, ela não conseguiu a permissão”, conclui.

Pedido negado

Ana Lúcia Gonçalves, 22 anos, está há sete meses trabalhando como babá nos EUA, no estado de Montana, através de um programa de “au pair” organizado por uma agência de Bauru, mas teve seu visto negado três vezes pelo Consulado Americano no início de 2002. Ana conversou com a reportagem do JC por e-mail.

“Depois de tudo acertado com a empresa, tudo pago, eu iria para uma família na Pensilvânia. No Consulado, com a passagem marcada para três dias depois, fui muito mal atendida e tive meu pedido negado sem explicações”, relata. Ana decidiu ficar em São Paulo e tentar novamente no dia seguinte, quando teve seu pedido negado pela segunda vez.

“Eu tentei novamente, mais de uma semana depois. Levei uma carta de um senador americano, amigo da família para a qual eu iria trabalhar, e a pessoa que me atendeu nem leu a carta, só me disse que aquilo não mudava nada. Usei todos os argumentos que tinha, e escutei que deveria tentar somente depois de seis meses”, conta Ana.

Entre as histórias e relatos que ouviu enquanto aguardava seu visto, Ana conta de duas irmãs que viajariam para Disney World, mas só uma conseguiu a permissão, e de um casal que viajaria em lua-de-mel em que só o rapaz obteve o visto. â€œÉ uma coisa sem nenhuma explicação. A reação das pessoas também é inesperada: alguns choram, outros ficam superfelizes. Eu chorei só do lado de fora (do Consulado), não por não conseguir o visto, mas por ter sido mal-atendida”, lamenta.

Ana tentou novamente viajar depois de quase um ano, para não perder o dinheiro que havia investido no programa de “au pair” - a empresa só devolveria 50% caso a viagem não desse certo. “Encontrei outra família, e depois de ver meu passaporte com três negações e de olhar todos os papéis, a atendente me disse: ‘Eu confio em você, mas vê se não vai ficar por lá, hein, menina’. E já estou aqui há sete meses”, conclui.

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