“Isto é do tempo do onçaâ€. Assim se referia meu pai a coisas muito antigas, dos velhos tempos que não voltam mais. Fatos, coisas ou atitudes fora de moda, vetustas, arcaicas eram do tempo do onça. Meu velho, um homem do seu tempo, bem informado embora autodidata, nunca soube explicar ao filho perguntador por que não do “tempo da onçaâ€. Outro dia recebi um livro recém-lançado e de autoria do meu colega jornalista Manoel Whitaker Salles intitulado “Dentro do dentro: os nomes das coisas†(Ed. Mercuryo).
Pronto, resolvido o enigma que me acompanhava desde criança. “Onça†era o apelido do capitão português Luiz Vahia Monteiro que governou o Rio de Janeiro entre 1725 e 1732. Vangloriava-se de ser honesto e ético. Chegou a dizer em carta a El Rei D. João VI que “nesta terra todos roubam, só eu não rouboâ€.
Os cariocas o apelidaram de “virgem no bordel†e, quando queriam dizer ironicamente que algo correto havia acontecido fazia muito tempo, diziam que aquilo “era do tempo do Onçaâ€. Do tempo em que as pessoas eram honestas e éticas ao invés de uma simples referência a antigas épocas. Concluído o mandato “seu†Onça voltou para Lisboa, onde viveu à larga, como se diz até hoje em Portugal. Seu palácio era quase do tamanho do Queluz, onde morava o monarca e sua corte. Causava admiração a vida nababesca do capitão, a ponto de d. João indagar ao barão D’Alencastro, seu fiel tesoureiro, se não estava pagando soldos demasiado altos à soldadesca.
Era um lobo em pele de cordeiro. Sepulcro caiado - como dizia a Bíblia - branco por fora e podre por dentro. Nada de novo sob o sol. As vestais ainda continuam freqüentando bordéis. Os políticos se locupletam, cada um a seu tempo. Ainda que candidato - explica Salles - venha do latim “candidatusâ€, uma derivação de candidus, ou imaculado. Era tradição na Roma antiga que um indivíduo interessado em ocupar um cargo público se vestisse de branco imaculado para dar a impressão de limpeza, de “ficha limpaâ€. Pena que no decorrer da história, o conceito tenha mudado. Quando o povo romano se enchia dos seus legisladores ia ao Senado atirar maçãs podres no plenário, para macular as vestes daqueles que não estavam fazendo jus ao juramento do viver honesto e de respeito à “res publicaâ€(coisa pública), de onde veio República. Cícero ocupava a tribuna quando alguém atirou uma maçã bem passada no centro do plenário do Senado romano. Todos sabiam que o protesto não era contra o orador, mas dirigido a Públio Starcus um dos pares que havia vendido até a alma para os pavimentadores da desgraça nacional. O episódio da maçã deu o mote para um dos mais brilhantes discursos de Cícero, aquele da fruta apodrecida que, se não expulsa da cesta logo que percebida, contamina as outras maças pondo tudo a perder.
Quando Lula chama o membro histórico do partido de companheiro, utiliza-se da raiz fincada no latim clássico “companioâ€, que significa cum “com†e panis “pãoâ€. Portanto, companheiro é aquele que divide conosco o pão. Doloroso que, uma vez instalado em palácio ao sopro da boa fortuna muita gente se esqueça daqueles que com ele um dia dividiram a migalha.
A orgia com o dinheiro público é exercitada de muitas maneiras. Há os simples escroques que simplesmente cobram propinas e enfiam o dinheiro no bolso sem maiores cuidados. Há os que exigem notas verdes, de contado. Ou em depósitos em contas cifradas, próprias dos paraísos fiscais. A farra com a viúva também se dá de outras formas. Distribuição de cargos entre amigos, por exemplo. Paga-se com vencimentos. Tipo do crime que não deixa rastro. Logo que eleito Tancredo Neves espantou-se ao saber que teria 30 mil cargos a preencher. Todos teriam seu respectivo decreto de nomeação publicado no Diário oficial e com sua assinatura. “Tenho mais de 70 anos. Nem que eu viva mais 70 jamais vou conhecer tanta gente†- disse o velho estadista. Depois de ocupar os postos mais cobiçados da República ainda se espantava com as coisas do poder. Pobre poder. (O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC )