Pedras arremessadas, gritaria e explosões de bombas de efeito moral e de gás lacrimogêneo, além de feridos e um refém. Esse foi o cenário da pior rebelião sofrida pela unidade de Bauru da Fundação para o Bem-Estar do Menor (Febem). O motim, iniciado ontem por volta das 15h30, durou cerca de cinco horas e resultou em pelo menos um menor e dois policiais feridos e na destruição total das salas da Unidade de Internação (UI).
A situação só foi controlada com a ação da Tropa de Choque da Polícia Militar (PM), que também conseguiu impedir a morte de um interno tomado como refém. Além de espancado, o menor ainda foi perfurado no abdôme com um estilete e teve o rim atingido. Ele foi socorrido ao Pronto-Socorro Central (PSC). Até o fechamento desta edição, não havia informações mais detalhadas sobre o estado de saúde do menor.
Dos 45 internos que participaram do motim, cerca de 17 seriam autuados por tentativa de homicídio (já completaram 18 anos) e conduzidos ao Centro de Detenção Provisória (CDP), mas a Polícia Civil preferiu abrir inquérito e investigar as circunstâncias que envolveram a rebelião. Se não fosse assim, além da tentativa de homicídio, também responderiam por resistência e danos ao erário público.
A PM confirmou que as salas de aula, as oficinas, a padaria e o salão de jogos sofreram danos de grande monta. Extra-oficialmente, o Jornal da Cidade soube que apenas o alojamento e a sala de informática foram preservados.
Foi justamente através da demolição do prédio que os menores conseguiram produzir armas brancas e pedras para o confronto contra a polícia. Eles também tiveram acesso às ferramentas (enxada, martelo, alicate) do curso de marcenaria, que foram usadas durante o conflito. Um policial levou uma pedrada no rostou e outro uma martelada na boca.
Denúncia
Armados e com o refém, eles exigiram a presença o juiz da Vara da Infância e da Juventude, Ubirajara Maintinguer, para denunciar maus-tratos por parte de alguns funcionários, conforme confirmou o próprio juiz. Informações não oficiais também dão conta de que os internos estariam exigindo liberdade para vestirem as roupas de preferência e autorização para assistirem televisão e freqüentarem a sala de jogos sem limite de horário.
Porém, mesmo com o comparecimento do magistrado, a situação não foi controlada. Houve tentativa de fuga, que foi frustrada, já que a unidade estava cercada pelos policiais. Até as 22h, uma teresa (corda feita de tecido) continuava pendurada do lado de fora da unidade.
Na eminência da fuga, funcionários da Febem saíram pela porta principal da unidade portando bastões de madeira para tentar evitar o escape em massa dos internos. A correria foi grande do lado de fora, onde outros funcionários aguardavam o fim do motim.
Eles acompanharam o lançamento de pedras para fora da unidade, que atencedeu a tentantiva de fuga frustrada. Os servidores também se assustaram com as explosões das bombas, que vieram logo depois, com a entrada da Tropa de Choque.
No início da ação policial, o juiz e a diretora da unidade, Maria Aparecida Cavalheiro Bien, deixaram o prédio. Enquanto isso, 25 policiais e dois cães tentavam controlar a situação, inclusive com balas de borracha.
Após as explosões, ainda foi possível ouvir gritos dos internos, que pareciam falar em código. Até o fechamento dessa edição, o juiz estava na delegacia de polícia relacionando os menores envolvidos diretamente na rebelião. Ele negou a transferência de internos.
De acordo com policiais, o interno que teria organizado o motim é de Araçatuba, de onde veio transferido por ter liderado uma rebelião naquela unidade. Segundo o capitão Benedito Roberto Meira, comandante da 1.ª Companhia da PM, apenas um dos menores envolvidos é de Bauru, o restante das cidades da região e de Araçatuba.
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Histórico
• Tida como um renovado modelo de ressocialização de jovens infratores e segura em relação à comunidade à sua volta, a Fundação para o Bem-Estar do Menor (Febem) de Bauru tem pouco mais de um ano – começou a funcionar em junho do ano passado -, mas acumula pelo menos 13 ocorrências, entre fugas, denúncias de maus-tratos e rebeliões.
• Há menos de um mês, no dia 14 de junho, quatro funcionários e três menores foram feridos durante um tumulto iniciado por um interno que estava sendo transferido. Um dia antes, a unidade sofreu uma tentativa de fuga.
• No total, a assessoria de imprensa da fundação confirma pelo menos cinco ocorrências em Bauru desde que a atual diretora Maria Aparecida Cavalheiro Bien assumiu.
• Ela substitui a ex-diretora Edinéa Sita Cucci, que foi demitida por justa causa em 14 de julho, em decorrência de processo administrativo que investigava a execução de serviços na sua residência por funcionários da Febem.
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