Como na vida real, os atores Murilo Benício e Giovanna Antonelli formam um casal romântico na comédia teatral “Dois na Gangorra”. Depois de ser apresentado em diversas capitais brasileiras, o espetáculo chega a Bauru nesse fim de semana, com sessões realizadas amanhã, sábado e domingo, no Teatro Municipal “Celina Lourdes Alves Neves”.
Dirigida pelo cineasta Walter Lima Júnior, a peça mostra como solidão e carência afetiva acabam aproximando Jerry (Benício) e Gittel (Antonelli).
Ele é um advogado recém-separado de sua mulher, com medo de amar novamente e que tenta recomeçar a vida. Ela, uma jovem figurinista e ex-bailarina, que tem como principais características a luminosa presença de espírito e a ingenuidade.
O texto, escrito pelo norte-americano William Gibson em 1950, encanta platéias há mais de quatro décadas. Grandes nomes do teatro, como Tônia Carrero e Paulo Autran, e Lilian Lemmertz e Juca de Oliveira já interpretaram os personagens nos palcos. No cinema, o casal de “Dois na Gangorra” já foi vivido por Anne Bancroft e Henry Fonda, e Shirley MacLaine e Robert Mitchum.
Para a nova montagem (que foi traduzida pelo também cineasta Domingos de Oliveira), é a vez de Antonelli e Benício - que fizeram sucesso como par romântico na novela “O Clone” - darem vida aos personagens.
Segundo Walter Lima, em entrevista exclusiva concedida ao JC Cultura, a escolha pelos atores não se deve necessariamente à união dos dois na vida real, mas ele garante que o carisma de Antonelli e Benício é um atrativo a mais.
Com “Dois na Gangorra”, o cineasta, que já produziu diversos filmes no País, estréia no teatro, dirigindo a dupla de jovens atores. Antonelli, inclusive, também pisa pela primeira vez nos palcos. Confira a seguir, os principais trechos.
Jornal da Cidade - Por que você optou por dirigir a obra de William Gibson? Walter Lima Jr. - Em primeiro lugar porque o texto é muito bem escrito. Segundo porque ele fala de coisas eternas, como a relação de homem e mulher, amor e amizade, a revelação que um ser pode causar ao outro. São enfoques muito ricos que não são tão distantes da gente, O texto cuida de coisas reais, de sentimentos muito próximos que atingem a qualquer público. Nós três procuramos vários textos e eles (Antonelli e Benício) mesmos escolheram. Eu acho que os atores se encantaram com o texto porque ele tem uma qualidade literária bem grande, já foi testado no Brasil em outras oportunidades e sempre com grande empatia com o público. Isso era uma das razões que nos levavam a querer a obra.
JC - O fato da Giovanna Antonelli e Murilo Benício serem um casal ajudou na escolha pelo elenco? Lima Jr. - Acho que não faz a diferença. O fato de eles serem pessoas muito conhecidas e que têm uma forte repercussão junto ao público, e ao mesmo tempo serem duas pessoas unidas, que além de serem casados e se amarem, são amigos e gostam da profissão somou para que se resultasse num entusiamo maior. Mas o fator marido e mulher, pela natureza do ator, acho que isso não conta tanto. O ator batalha e luta pelo personagem.
JC - Os personagens têm personalidades diferentes na trama. O cenário simboliza essas características? Lima Jr. - O cenário é bastante complexo, mostra dois ambientes montados sob um palco giratório. É um apartamento dele e o outro dela. Ela se passa num ambiente cultural preciso, que é a cidade de Nova York. Esses dois ambientes giram, uma hora é um, e depois o outro. Eles são alternativos.
JC - A história se passa em Nova York, na década de 50. Qual é sua relação com os dias atuais? Lima Jr. - O discurso da peça é atemporal, fala de relações humanas. E tudo o que está sendo contado lá pode estar acontecendo em qualquer momento, em Bauru, no Rio ou em Nova York, em qualquer lugar. Eu não me preocupei em ambientar isso para o Brasil justamente porque existe um certo charme o fato de se passar lá. Mas a história é muito universal, o que ela fala pode acontecer a qualquer momento e em qualquer lugar do mundo. O encontro de duas pessoas e como elas se descobrem não é muito diferente do que acontecia em 1950 e do que acontece agora.
JC - Você é diretor de cinema, dirigiu grandes filmes como “A Ostra e o Vento”, “Ele, O Boto” e “Inocência”. Por que a escolha pelos palcos, já que “Dois na Gangorra” marca sua estréia no teatro? Lima Jr. - Eu dou muita aula para estudantes de teatro e atores e a minha proximidade com eles é permanente e continuamente eu me vejo muito próximo a essa possibilidade. Em um determinado momento eu resolvi experimentar.
• Serviço
Peça “Dois na Gangorra” amanhã e sábado, às 21h; e domingo, às 20h, no Teatro Municipal. Realização: Chaim Produções, EL Teatro Produções e Secretaria Municipal de Cultura. Patrocínio: Embratel e Gol. Apoio: Jornal da Cidade, Rádio Auriverde AM, TVTEM, Hotel Saint Paul Residence, Organiza SP- Assessoria de Eventos, SLA Fashion, Kromus Gráfica, Baby Buffalo, Cervejaria dos Monges, Cantina Del Pópolo e Restaurante Ta-yu. Avenida Nações Unidas, 8-9. Informações: (14) 235-1312 .
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O cineasta
Natural de Niterói, Rio de Janeiro, Walter Lima Jr., 65 anos, é um dos principais cineastas brasileiros em atividade, tendo iniciado sua carreira no Cinema Novo. Considerado um “workaholic” obsessivo, ele soma nova longas - de “Menino do Engenho”, passando por “Lira do Delírio” e “Inocência” - além de dois telefilmes: “Joana Angélica” e “Meu Filho Teu” (protagonizado pela italiana Ormella Mutti) e dezenas de médias, entre elas, “Uma Casa para Pelé” e “Em Cima da Terra, Embaixo do Céu”.
Mas o currículo de Lima Jr., não pára por aí. Além dos curtas e minisséries, como “Capitães de Areia” e “Meu Marido”, produziu 68 documentários para o Globo Repórter, da Rede Globo. O cineasta - que foi tema do livro “Walter Lima Júnior - Viver Cinema”, lançado em 1995 por Carlos Alberto Mattos - já recebeu diversos prêmios. Entre eles, o Urso de Prata em Berlim (1969), a Margarida de Prata da CNBB (1982) e o “Cinema d’Avvenire”, no Festival de Veneza (1997).
Apesar da rotina intensa, Lima Jr. encontra tempo ainda para dar aulas de cinema na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), e para cuidar dos dois filhos, João e Branca.