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Visões do futuro


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A política brasileira tem gerado uma multidão de profetas. A profecia é arte superior da razão. Quem não quer compreender o futuro? Na nossa vida social, cruzamos com profetas para todos gostos e todas as crenças. É compreensível que, na vida política, surjam pitonisas. Quem não quer saber o destino do governo Lula da Silva? Profecias povoam o noticiário. Algumas otimistas, outras realistas, algumas desconfiadas, outras vaticinando tormentas. Todo mundo arrisca previsões. Hoje vamos tratar das visões dos donos do poder.

Comecemos com pés no chão. Decorreram 34 semanas de governo. Que dizem as pesquisas? Não fazem previsões, mas indicam tendências. Registram, no mês de agosto, 48% de avaliação positiva para o governo Lula. FHC tinha, na mesma época, 39% de avaliação positiva com plano real e tudo.

Quanto tempo vai durar a paciência do eleitor? Muito discurso, muito marketing e muita fala coloquial criam um presidente simpático. Exagera quase sempre. Corre o perigoso risco de virar caricatura. A imagem pode ser corroída aos poucos e de forma inexorável. Há quem acredite, ao contrário, que, no Brasil, a imagem do presidente estará sempre em alta. Foi assim até com os presidentes militares.

Situação paradoxal. A economia permanece estagnada, o desemprego nas alturas, a renda caindo. Todo mundo continua aguardando milagres. A esperança é a última que morre. Não é para menos, só há oposição de radicais petistas. O governo joga de mão. Estabelece os prazos e a agenda do debate nacional. As oposições permanecem basbaques: roubaram suas propostas, perderam a iniciativa e ficaram desnorteadas. O PFL, incômodo na oposição. O PSDB, contagiado pelo vício de ser governo.

As visões triunfais e otimistas de Lula, evidentemente, começam a irritar a oposição. Estava quieta e bem comportada aprovando as reformas. Lula tripudiou: “Este é o ano em que nós consertamos o País, arrumamos a casa. O espetáculo do desenvolvimento vai começar”. Seguem bravatas e mais bravatas. Perigo à vista.

Abandonando os delírios da retórica e da bravata triunfal, damos de cara com as observações ponderadas de Henrique Meirelles, presidente do Banco Central. “Existem sinais que mostram que a economia já está no caminho de crescimento e que a retomada se dará a partir do último trimestre deste ano. Como nos versos de Drumond, existem pedras nesse caminho”, amacia Meirellles. Políticas fiscais e monetárias “consistentes” são necessárias para produzir superávit primário e melhoria das contas externas. Produção de saldo comercial e aumento do fluxo do comércio, devem somar-se às reformas e à nova Lei de Falência. O crescimento dependerá de políticas governamentais e decisões de investimento do setor privado. Tudo como rezava a cartilha do velho e sábio Malan.

Nas fimbrias dos donos do poder, os petistas radicais repetem profecias. A conversão de Lula da Silva à ortodoxia continua incompreensível para cérebros de poucos neurônios. Repetem e profetizam que virá o segundo tempo do governo. Às concessões ao mercado, sucederá a virada radical. A conversão de Lula é hábil tática para iludir a burguesia. Lula nem dá mais bola para os radicais. Chuta para frente. Está em outra há muito tempo. Nem de esquerda quer ser mais chamado: “esquerdista” é algo ofensivo. Declarou com todas as letras na Venezuela. Só falta afirmar que detesta cheiro de povo. Gosta mesmo do aroma Chanel. Não vai repetir o mau gosto histórico do Figueiredo que cheirava cavalo.

O autor, Ulysses Guariba, é professor da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP.

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