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Jogando fora o dinheiro escasso


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Como você se sentiria, colaborando com uma campanha filantrópica, satisfeito consigo mesmo por estar ajudando alguém que necessita, e depois visse boa parte da sua contribuição gasta desnecessariamente com quem não precisa de ajuda? Possivelmente seja isso o que devem ter sentido a Gisele Bünchen, que doou R$ 50 mil, e as empresas que doaram toneladas de alimentos para o projeto “Fome Zero”, se chegaram a ler na Folha do dia 3/8, que o governo contratou uma consultoria da Unesco (órgão das Nações Unidas), por R$ 26,6 milhões, dos quais R$ 17,4 milhões seriam para pagar salários de R$ 4 mil a R$ 10 mil e R$ 1 milhão para passagens e diárias. Segundo a reportagem, esse valor corresponde a 40% do que já foi transferido às famílias carentes por meio do Cartão/Alimentação.

Por mais que os membros do governo e da Unesco tentem justificar, dizendo que não é uma consultoria, mas uma parceria necessária para viabilizar o projeto, dadas as suas proporções e complexidade, é difícil não sentir uma certa indignação. Não teria o governo, em seus próprios quadros, pessoas capazes dessa tarefa? Não poderia contar com trabalho voluntário? Campanha dessa natureza, com fins humanitários, facilmente encontra pessoas dispostas a colaborar com seus conhecimentos e habilidades. Com uma pequenina fração desse gasto seria possível dar recursos para que funcionários e voluntários realizassem essa tarefa, possivelmente com mais eficiência e eficácia. E os gastos não vão limitar-se a esse. Depois dos trabalhos da consultoria, ou parceria como eles dizem, surgirão os projetos para operacionalizar e acompanhar o “Fome Zero”, com novos contratos, inclusive os de propaganda, que sempre sugam muito dinheiro público. No final, as famílias necessitadas estarão recebendo uma ínfima parcela dos R$ 1,8 bilhão que o governo pretende gastar.

Essa mania de procurar ajuda externa para desenvolver novos projetos não é uma característica exclusiva da administração pública. Todas as organizações, públicas ou privadas, costumam fazer isso. Ignoram os próprios recursos e gastam desnecessariamente contratando empresas ou consultores externos. Não que não se devam contratar recursos externos, mas quando a organização ignora os seus próprios recursos e contrata externos, está jogando dinheiro fora. Com a agravante de criar indisposição entre os seus funcionários com o trabalho externo, o que leva muitos projetos ao fracasso depois de consumirem muito dinheiro.

O prêmio Nobel de Economia 2002, professor da Princeton University em New Jersey, Daniel Kahneman, e o conferencista australiano Dan Lovallo, em artigo na Harvard Business Review de julho, atribuem o alto índice de fracasso de novos projetos, em torno de 70%, ao excesso de otimismo quanto aos resultados, com desprezo do custo. Dizem: “Ao planejar iniciativas de grande importância, o executivo costuma exagerar os benefícios e subestimar os custos, ditando o próprio fracasso... Quando a opinião pessimista é suprimida e a otimista é recompensada, a capacidade de raciocínio crítico da organização fica seriamente comprometida”. Do mesmo modo como o presidente Lula viu no “Fome Zero” a grande revolução do seu governo e com isso venha a gastar mais com o projeto em si do que com os pobres que pretende ajudar, também o entusiasmo de um empresário com seu novo projeto faz com que subestime o custo procurando ajuda externa, quando poderia aproveitar melhor o seu dinheiro usando os talentos existentes em sua empresa.

O autor, Pedro Grava Zanotelli, é administrador e ex-diretor da Faculdade de Ciências Econômicas da ITE.

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