Economia & Negócios

Carteiros decretam estado de greve

Josefa Cunha
| Tempo de leitura: 4 min

A subsede-Bauru do Sindicato dos Empregados dos Correios decretou estado de greve no fim da tarde de ontem, depois que funcionários do setor operacional da empresa rejeitaram, em assembléia, duas propostas patronais apresentadas. O indicativo de greve foi informado oficialmente à direção dos Correios local e pode desencadear uma paralisação a partir da próxima terça-feira.

A assembléia deliberativa foi convocada em Bauru um dia depois que trabalhadores da Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos (ECT) de 22 Estados decidiram entrar em greve por melhores salários. A suspensão efetiva das atividades na cidade vai ser definida na segunda-feira à tarde e tem grandes chances de se confirmar caso o movimento perdure em nível nacional - principalmente em São Paulo -, o que depende exclusivamente de uma oferta que atenda às expectativas da categoria.

Ontem, a ECT apresentou duas propostas. A primeira equivaleria a um reajuste de 22,71%, sendo 6% para toda a categoria e três promoções (duas agora e outra em janeiro) para os empregados enquadrados entre as referências salariais 9 e 27, as quais abrangeriam 75% do quadro de pessoal da empresa, hoje estimado em 98 mil trabalhadores. O vale-alimentação saltaria de R$ 10,50 para R$ 12,00 - cada empregado recebe 28 tíquetes por mês.

Na segunda oferta, os reajustes seriam mais diferenciados. Para os que ganham o piso - hoje de R$ 395,00 -, o aumento seria de 20,39%; os enquadrados entre as referências 10 e 22 ganhariam 14,66%, e os situados entre as faixas 23 e 64 teriam um acréscimo de 9,20%. Esta segunda proposta ainda oferecia aumento de R$ 0,50 no vale-alimentação, abono de R$ 1.000,00 (pagamento em duas parcelas) e reajuste de 4% para toda a categoria. A empresa também teria se comprometido a implementar um plano de cargos e salários até junho de 2004.

As ofertas não tentaram os trabalhadores, que continuam firmes na reivindicação de 69% de reajuste, aumento real de 10%, gatilho de 5%, elevação do piso para R$ 1.500,00 e reintegração dos demitidos durante a reforma administrativa promovida pelo governo Collor.

O presidente do sindicato dos trabalhadores em Bauru, José Aparecido Gimenes Gândara, disse que as propostas patronais continuam muito aquém do que a categoria pede, quer e merece. Mesmo assim, ele optou por não incitar uma paralisação imediata. “Vamos avaliar o comportamento do movimento em todo o Brasil neste fim de semana e aguardar uma oferta mais condizente. Se o pessoal continuar parado, é bem provável que deliberemos pela greve, até porque não queremos furar um movimento que luta por todos”, justificou.

Cerca de 400 pessoas trabalham na ECT em Bauru, sendo metade lotada no setor operacional (carteiros), coluna dorsal da greve em todo o País. Segundo Gândara, cerca de 120 trabalhadores - todos operacionais - participaram da assembléia de ontem, realizada na Praça Rui Barbosa.

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Novos rumos

A mobilização dos funcionários dos Correios em Bauru quebra um jejum de pelo menos seis anos. A última paralisação da categoria na cidade foi em 1997 e, segundo informações extra-oficiais, não teria tido o apelo público verificado na tarde de ontem.

O atual presidente do Sindicato dos Empregados dos Correios, José Aparecido Gimenes Gândara, disse que a entidade está inaugurando uma nova fase, a qual não descarta uma aproximação com a Federação Nacional dos Trabalhadores em Correios e Telégrafos (Fentect), sua opositora ferrenha desde que foi fundada em Bauru, em 1997.

Nestes últimos anos, o sindicato foi taxado de “pelego” (afinado com o lado patronal), enquanto a federação se auto-proclamava a verdadeira defensora dos trabalhadores.

“O sindicato de Bauru é o único do País que não é filiado à Fentect. Além de garantir um mandato de sete anos para a diretoria eleita, pouco fez para os trabalhadores. Bauru é a única cidade brasileira que não conseguiu reintegrar sequer um único funcionário demitido durante o plano Collor”, apontou José Aparecido de Oliveira, ex-membro e militante da causa da Fentect.

“Passamos por um período de estagnação, mas queremos renovação. Tem gente que confunde ser pelego com bom senso; tem gente que é taxado de radical porque troca os pés pelas mãos. Nessa nova fase, podemos amadurecer uma aproximação com a federação, mas ainda não conseguimos identidade com nenhuma de suas facções”, contrapôs Gândara, referindo-se aos grupos políticos ligados à Fentect.

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