O verbo tolerar vai ser o mais flexionado nos bastidores políticos das eleições municipais do ano que vem. Pela primeira vez, o município vai experimentar a instituição de dois turnos na escolha do futuro prefeito da cidade. A nova sistemática eleitoral vai impor um jogo político de tolerância entre os principais candidatos, já que todos eles almejam chegar ao segundo turno, etapa na qual vão precisar do apoio daqueles que não conseguiram avançar após conhecido o resultado das urnas.
Os costumeiros ataques e contra-ataques que transformaram, em muitas ocasiões no passado, o debate eleitoral em baixo nível deverão ser deixados de lado, dando lugar à discussão de idéias de maneira mais polida e democrática. Na temporada de campanha de 2004, o que se prevê é um verdadeiro flerte político, pelo menos até o final do primeiro turno.
Será a fase em que partidos e candidatos estarão dispostos a “engolir sapos” na esperança de concretizar uma relação futura, leia-se segundo turno. Enquadrados nesta leitura, os grupos políticos dos prefeitáveis conhecidos até o momento - Carlos Braga (PP), Dudu Ranieri (PFL), Caio Coube (PSDB) e Tuga Angerami (PDT) - todos com chances de conquistar um provável segundo turno, vão empregar a chamada “política da boa vizinhança” com partidos que até têm lastro para lançar candidaturas próprias, mas não devem ter fôlego suficiente para agüentar a corrida eleitoral rumo ao segundo turno das eleições.
Em tese, legendas como o PMDB, PT, PTB, PL, PPS e PSB - partidos com representação na Câmara Municipal - devem marcar presença no pleito do ano que vem com candidaturas próprias.
Pelo menos é o que se espelha no momento político. Deve ficar de fora do contexto, o PC do B, que tradicionalmente firma aliança para conquistar seus projetos eleitorais. Esses grupos políticos - à exceção daqueles que decidirem, ainda no primeiro turno, compor com outras legendas - vão ser almejados durante toda a campanha eleitoral por aqueles que, em tese, abrigam maiores chances de vencer a corrida eleitoral rumo ao segundo turno.
Desprezos, ataques impensados e raivosos, cenas comuns nas últimas eleições, vão ceder lugar a conversações de bastidores de nível respeitável, reforçando o jargão de que a política é mesmo dinâmica e flui de acordo com as conveniências do momento.
Negociação
O cientista político Celso Zonta, professor-doutor da disciplina de psicologia social da Universidade Estadual Paulista (Unesp) e especialista em comportamento político, acredita que a maioria dos partidos organizados na cidade deverá lançar candidaturas próprias a prefeito no primeiro turno das eleições do ano que vem.
“Primeiro, pela necessidade de lançar seu quadro de vereadores. Segundo, porque o partido precisa aparecer e apresentar suas propostas. Terceiro, porque será necessário acumular força política para provocar o processo de negociação visando o apoio ao segundo turno das eleições”, analisa.
Na avaliação dele, a instituição dos dois turnos torna o processo eleitoral mais democrático. “No primeiro turno, o candidato que se apresentar em primeiro lugar não significará que terá, necessariamente, o apoio da maioria da cidade, ou seja, 50% mais um. E no segundo turno é possível garantir isso. Mesmo as pessoas que não votaram naquele candidato que está à frente vão fazer uma análise e avaliar que ele pode ser o melhor dentre os dois que se apresentam. Nesse sentido, há um depuramento da democracia”, finaliza.