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Quem brinca com fogo...


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O Banco Central preferiu errar para mais na elevação das taxas de juros do Selic em sua luta para trazer a inflação de volta a níveis compatíveis com a estabilidade de nossa moeda. Sua posição conservadora ignorou os conselhos de vários analistas – inclusive este que vos escreve semanalmente – pois, já em abril, havia sinais claros de que a inflação mostrava tendência sistemática de queda.

Estes mesmos analistas, todos que ainda se guiam pela metodologia do sempre grande Lorde Keynes, apontavam a clara desaceleração da economia como causa primeira para esta convicção. Dizíamos ainda que, também em função da recessão econômica causada pela combinação de juros elevados e de um superávit primário expressivo nas contas fiscais, os saldos crescentes de nossa balança comercial garantiriam a estabilidade da taxa de câmbio. Sem pressão do lado da demanda – resultado da recessão interna – e sem pressões de custo em função de um dólar comportado, os preços não teriam força para pressionar a inflação.

Venceram os analistas mais conservadores e o Banco Central manteve os juros elevados por mais tempo que o necessário. O resultado final foi o mesmo – a inflação foi dominada finalmente – mas a economia foi obrigada a suportar um arrocho monetário maior do que o correto. Isto deixou seqüelas importantes embora não visíveis a olho nu da opinião pública.

Mas a economia funciona com uma lógica muito clara, com relações previsíveis de causa e efeito. Como a dose de juros elevados foi maior do que a necessária, a queda da atividade econômica foi mais intensa do que a prevista pela maioria dos economistas. Com isto, a queda dos salários e o nível de desemprego foram maiores, o consumo interno menor, as exportações cresceram mais e a queda das importações seguiu trajetória mais baixa do que se esperava. Além disto, o custo da dívida pública interna foi superior ao necessário, impondo uma perda extra para todos os brasileiros.

Mas, como a vitória sobre a inflação era o objetivo central do governo, este erro de calibragem do Banco Central foi esquecido e seu presidente quase ganhou de Lula uma medalha de honra ao mérito. Os mercados também manifestaram sua euforia fazendo cair o risco Brasil e apostando fortemente na queda do dólar. Nós, os críticos do COPOM, passamos a ser olhados como um bando de injustos e de ressentidos com o novo PT.

Mas a realidade econômica cobra de uma forma duríssima os enganos cometidos, embora possa ocorrer uma defasagem entre erro e castigo. É o que acontece agora quando os resultados da arrecadação de impostos relativos ao mês de agosto são publicados. A recessão exagerada provocada pelo Banco Central resultou em uma redução expressiva no volume de entradas de impostos no caixa do tesouro federal.

Como esta tendência deve continuar durante os próximos meses, já começam os murmúrios de preocupação sobre a viabilidade de o governo conseguir atingir a ambiciosa meta de superávit primário, fixada para o setor público no acordo com o FMI.Todos nós sabemos que esta é uma das âncoras principais da credibilidade atual da política econômica do governo.

Como diz o título desta coluna, quem brinca com fogo...! (O autor, Luiz Carlos Mendonça de Barros, é colaborador do JC)

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