Ser

Ciúme, o tormento do coração

Rose Araujo
| Tempo de leitura: 5 min

Joana não deixa o namorado, José (nomes fictícios), sair sozinho. Ela tenta controlar todos os passos do seu amado e até mesmo a caixa de e-mails é freqüentemente verificada pela garota, em busca de uma pista que possa mostrar algum deslize.

Ela nunca encontrou nada que o desabonasse e, por conta disso, já passou por alguns vexames. “Ele não sabia que eu tinha a senha do e-mail dele e acabei me entregando quando fui cobrar satisfações”, conta Joana.

Ao verificar uma mensagem cujo rementente era uma mulher desconhecida, ela ligou para o trabalho do namorado exigindo explicações. Ele disse que não sabia quem era essa pessoa que havia mandado a mensagem e questionou como a namorada tinha tido acesso a essa informação. “Ele perguntou onde eu tinha visto isso. Eu não queria contar, mas ele acabou descobrindo que eu tinha o código de acesso e ficou uma situação chata. Fiquei morrendo de vergonha”, afirma.

Depois desse episódio, Joana diz que notou até que ponto podia chegar o seu ciúme e resolveu amenizar as suas reações. Mesmo assim, quando se sente ameaçada, ela diz que perde o controle da situação e vira uma fera. “Quando eu percebo o perigo, volta tudo de novo”, ressalta.

O caso da estudante é real e bem comum de encontrar nas relações humanas. Ditado pelo egoísmo, pela baixa auto-estima, pela insegurança e, até mesmo, pela possessividade, esse sentimento pode se tornar uma doença e destruir o relacionamento.

A psicóloga e terapeuta sexual Maria Lúcia Biem explica que o ciúme pode ser dividido em duas categorias: o saudável e o patológico. O primeiro é natural do ser humano e pode ocorrer em qualquer tipo de relação: pais e filhos, irmãos, amigos, namorados, etc. “Ele se manifesta de forma amena e sem trazer conseqüências desastrosas para a vida dos envolvidos na história”, destaca a profissional.

Já quando torna-se excessivo e foge ao controle do seu portador, o ciúme passa a ser encarado como um problema de saúde. “Eu costumo dizer que esse sentimento é um câncer que mata o amor”, salienta a psicóloga.

Em casos extremos, ele pode resultar até em violência física e morte. Foi o que aconteceu com o estudante de direito Higor Aparecido Catirsi, 22 anos, que matou, no último dia 1, a namorada, Camila Palini Duarte, 23 anos, numa loja de um movimentado shopping paulistano, se matando em seguida. “Ele estava completamente desestruturado e não conseguia imaginar vê-la com outro. A melhor solução, na cabeça dele, foi acabar com a vida de ambos”, destaca Maria Lúcia.

Esse mal tem cura

O psiquiatra Leonard Verea, especializado em medicina psicossomática e hipnose clínica, afirma que existem pessoas que têm tendência a desenvolver esse tipo de comportamento, desde que apresentem algum desequilíbrio emocional. “As pessoas ditas ‘normais’ são aquelas que conseguem eliminar as tensões acumuladas. Por outro lado, as que não conseguem dissipar essa energia, podem sofrer um ‘curto-circuito’ e tomar atitudes extremas”, explica.

Segundo ele, não há como prevenir esse tipo de “explosão”, pois as pessoas que possuem essa patologia acabam ocultando-a em seu íntimo. “As cenas de ciúme são tidas como normais, mas podem esconder esse desequilíbrio”, ressalta.

Encarado como doença, o ciúme excessivo tem cura. A hipnose, um dos métodos adotados pelo psiquiatra, é apontada como uma saída para resgatar o equilíbrio emocional. “Esse tratamento ajuda a readequar a auto-estima, a segurança e garante o controle emocional à pessoa”, afirma.

Maria Lúcia salienta que, para mudar o comportamento, a pessoa tem de ter força de vontade. “Ela tem de parar de olhar para o outro e passar a olhar para si mesma. Assim, vai poder trabalhar melhor as suas emoções”, salienta.

É o que está acontecendo com Joana. Depois de notar que o ciúme está atrapalhando o seu namoro e colocando-a numa situação de constrangimento, ela está procurando controlar as suas reações. “Eu me sinto mais tranqüila, reagindo menos aos impulsos, mas não é fácil acabar com isso de uma vez”, destaca.

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Escândalo na boate

O ciúme não traz conseqüências negativas apenas para quem o sente. Todos que estão à volta do ciumento acabam sendo atingidos, provocando uma sensação de mal-estar e transtorno.

A estudante Joana, por exemplo, não pode ver na sua frente a prima do namorado. Tudo por causa de uma situação que ocorreu em uma boate. “Eu estava com o José na danceteria e um cara chato estava dando em cima da prima dele. Vendo a cena, ele tentou ajudar a menina e abraçou-a para fingir que ela estava acompanhada. Quando eu vi aquilo, fiquei furiosa. Dei o maior show. Ameacei ir embora do lugar, falei um monte para ele”, conta.

Mesmo entendendo que não estava acontecendo nada demais entre o namorado e a prima, Joana não quer nem ver a menina na frente. “Peguei birra dela. Não deixo ele conversar com a garota e não vou em festas de família quando sei que ela está lá”, diz.

O estudante Carlos vive o mesmo drama que José. Namorando Cristina (nomes fictícios) há três anos, ele diz que suporta as mais diversas situações de ciúme em nome do amor.

“Ela não confia em mim de jeito nenhum. Faz escândalo por qualquer coisa e me obriga até a mentir de vez em quando, para não causar mais problemas”, salienta o rapaz.

Já o casal Sandra Mara Volpato, 26 anos, e Kleber Amorim Gotzo, 25 anos, tenta lidar numa boa com esse sentimento. Ela admite que é ciumenta, mas ressalta que nunca chegou a protagonizar escândalos por conta disso.

Sandra diz que só demonstra o sentimento quando ele dá motivos. “Se ele sai com um amigo solteiro e demora para voltar, eu fico nervosa e dou aquela intimada nele”, conta.

Ela pede um relatório completo de tudo o que Kleber fez e não o poupa de ouvir algumas “broncas”. “Eu não faço isso de propósito. É uma coisa que eu sinto e demonstro”, salienta.

Segundo Kleber, o ciúme da namorada é compreensível e é uma maneira de ressaltar a importância que ele tem na vida dela. “Ela é até liberal em alguns aspectos, mas é ciumenta em outros. No entanto, a gente nunca chegou a brigar feio por causa disso”, destaca.

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