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Reflexões na Hora Amarga


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O noticiário internacional recente vem dando conta ao mundo de algo que parece inacreditável: altas autoridades do governo de Israel têm se manifestado favoráveis ao exílio forçado de Yasser Arafat, não faltando quem, dentre aquelas autoridades, se manifeste claramente a favor da sua pura e simples eliminação física. Parece incrível, mas é verdadeiro. E o mais chocante é saber-se que o senhor Arafat é detentor, nada mais nada menos, de que de prêmio Nobel da Paz. Segundo as autoridades israelenses a que acabamos de referir-nos, ele, ao contrário, é um perigoso terrorista que, como todos os terroristas, deve ser morto.

O prêmio Nobel da Paz, portanto, para aquelas autoridades, não é nada que deva ser levado a sério. Choca, ainda, que as discordâncias até aqui manifestadas por autoridades americanas não se referem ao absurdo de admitir-se a supressão física de um ser humano, mas a ponderações acerca das conveniências dos hipotéticos mandantes do assassinato, cujos interesses seriam mais prejudicados do que ajudados. Não se trata, assim, de condenação ao mérito, mas de opiniões divergentes quanto à utilidade do assassinato.

O governo americano mostra assim, mais uma vez, ao mundo, a sua verdadeira face, de instrumento de interesses que nada têm a ver com os fundamentos judaico-cristãos da nossa civilização, consubstanciados nas Escrituras Sagradas, nas quais claramente se condena o assassinato ao enunciar o mandamento “Não matarás”. E todos sabemos que a taxativa proibição não se faz acompanhar da ponderação: “A não ser quando seja conveniente ou útil”.

E a civilização cristã, cuja defesa foi invocada na 2.ª Guerra Mundial como motivo central para a sua deflagração?

Não espanta, pois, que muitos vejam nos conflitos no Oriente Médio os indícios de um choque de civilizações. É que, para tristeza nossa e dos judeus fiéis à sua religião, os únicos religiosos no mundo que oferecem resistência eficaz contra valores que temos em comum, nós, judeus e árabes, são estes últimos.

É, de fato, um período crítico da História este em que estamos vivendo. Enquanto isso, políticos e multimídia deixam-se polarizar por problemas menores, conseqüentes, no fundo, àqueles mais profundos que estamos apenas aflorando, para que a inteligência e a consciência dos leitores se debrucem sobre eles. Estamos convencidos de que a reflexão que estamos sugerindo é, não apenas cabível, quanto indispensável a quem queira situar-se de maneira mais realista na interpretação desta fase da História contemporânea. Voltaremos ao assunto, se Deus quiser, em outra destas “Reflexões”.

O autor, Jorge Boaventura, é colaborador do JC.

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