Jaú - A agência do Instituto Nacional de Seguro Social (INSS) de Jaú (47 quilômetros a Leste de Bauru) parou ontem de manhã para assistir a uma manifestação desesperada do saqueiro Iran Amâncio Neto, 33 anos. Ele despejou gasolina sobre o próprio corpo, dentro da agência, e ameaçou acender o isqueiro que estava em sua mão.
O expediente foi interrompido por cerca de uma hora e só voltou ao normal quando policiais militares e do Corpo de Bombeiros retiraram Amâncio Neto do local. A agência estava lotada no momento do protesto.
A atitude foi uma demonstração de desespero diante da possibilidade de perder o emprego. A explicação foi dada pelo próprio protagonista da cena, horas mais tarde, nos corredores da Santa Casa de Jaú.
Amâncio Neto está afastado do serviço por apresentar problemas na coluna. Ele trabalha há 11 anos em uma empresa de Barra Bonita e durante esse tempo, segundo ele, teve como função carregar sacos que pesam aproximadamente 50 quilos.
Há cerca de uma semana, ele começou a fazer um treinamento dentro da própria empresa para mudar de função. No entanto, voltou a sentir dores nas costas e está com medo de ser demitido.
Ele conta que outros colegas foram dispensados pela empresa depois que passaram a apresentar problemas de saúde.
Desesperado, ele procurou a agência do INSS para solicitar aposentadoria por invalidez. Mas a única alternativa possível, segundo informou Elza Abdo, chefe da agência, é ele continuar participando do treinamento e mudar de função dentro da empresa.
Segundo explicou ela, as aposentadorias por invalidez só são concedidas a pessoas declaradamente incapazes de realizar qualquer serviço, por mais simples que seja. De acordo com ela, esse não seria o caso de Amâncio Neto.
Ontem de manhã, ele foi até a empresa, mas não chegou a entrar. De carro, ele foi até um posto de combustível, encheu dois galões de cinco litros cada com gasolina e se dirigiu à agência do INSS.
Ele chegou por volta das 9h. Entrou de mãos vazias, olhou o local por dentro e voltou para o carro. Em seguida, retornou a agência carregando uma sacola e dentro dela os galões.
Entrou sem ser incomodado pelo guarda que faz a segurança do local. Foi até a sala da perícia, onde ficam as assistentes sociais do INSS.
Sem explicar nada, despejou gasolina da cabeça aos pés, encheu o chão da sala com combustível e, segurando um isqueiro, ameaçava atear fogo no próprio corpo, caso não tivesse seu pedido de aposentadoria atendido.
A polícia foi chamada, mas enquanto não chegavam, os funcionários da agência tentaram acalmar Amâncio Neto e evitar uma tragédia no local.
De acordo com Elza Abdo, ele demonstrava muito nervosismo, mas “felizmente não chegou a cometer nenhuma loucura”. Amâncio Neto foi levado ao hospital, onde foi medicado por causa do contato direto e prolongado com o combustível.
No corredor da Santa Casa, deitado em uma maca, ao lado da mulher, Amâncio Neto revelaria mais tarde que não tinha a intenção de pôr fogo em nada. Ele queria apenas chamar a atenção para seu problema.
Quanto à falha na segurança, que permitiu a entrada dos galões com gasolina, a chefe da agência do INSS alegou que não é prática comum no local questionar o que as pessoas carregam nas sacolas.
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Crime
De acordo com o delegado Wanderley Vendramini, do 1º Distrito Policial (DP) de Jaú, será aberto inquérito para investigar o caso. Segundo explicou o delegado, se ficar comprovado que a atitude de Amâncio Neto colocou em risco a vida de outras pessoas, ele poderá responder criminalmente por isso. A pena varia de três meses a um ano de detenção.
Vendramini quer saber também se Amâncio Neto planejou tudo sozinho ou se foi induzido ou auxiliado por uma outra pessoa. Nesse caso, o “colega” também poderá ser penalizado.
Sempre calmo
Amâncio Neto é morador do Jardim Samambaia, em Jaú. Ele é casado com Maria de Fátima Fracaroli, 40 anos, mas não tem filhos. Ambos trabalham na mesma empresa.
A exemplo do marido, Maria de Fátima também tem problemas de saúde que a impedem de exercer sua antiga função dentro da empresa. Ela trabalha como empacotadeira, mas está afastada do serviço há dois anos e meio por causa de hérnia de disco e artrose.
Segundo ela, a atitude do marido a surpreendeu. “Ele sempre foi calmo. Quando soube, não acreditei que ele tinha feito o que fez”, contou.