Cultura

Artigo - O Fogo: Alguns Sentidos


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Como o fogo pode simbolizar muitas coisas, neste texto colecionei alguns desses significados e de suas finalidades, mesmo as cruéis. Na pré-história, ele serviu para iluminar o improvisado archote com que o homem primitivo iluminou a sua moradia: uma caverna. E foi fonte de calor quando esse ser sentiu frio. Ou arma de defesa quando ele precisou enfrentar ou espantar animais selvagens.

No farol insular, quando aceso, orientou os antigos nautas que cruzaram os mares. Alimentando fornalhas, ele ajudou a movimentar as locomotivas que percorreram distâncias levando pessoas e bens de um para outro local.

Desde a Grécia antiga, de país a país, onde se promovam os jogos olímpicos, o fogo é simbolicamente transportado de uma para outra sede dessas competições, realimentando a pira eterna existente nos estádios onde eles realizar-se-ão.

O fogo, em outros tempos, foi arma da intolerância. Na inquisição, usaram-no para punir as almas perdidas, bruxos e incrédulos, a juízo da Igreja. Joana D’Arc foi uma das vítimas dessa insensatez religiosa. Rituais racistas macabros feitos por pessoas aparentemente normais, geralmente executados na calada da noite, permitiram a seitas segregacionistas, a utilização do fogo para promover reuniões onde ocorreram o extermínio de pessoas.

Ele também foi instrumento de misticismo e fascínio. No passado, a fogueira acendida em homenagem a alguns santos atraía as pessoas, diminuía o medo que tinham da noite e aplacava a ira dos maus espíritos e purificava a alma dos arrependidos.

Fascínio e mística levam também ao fogo-fátuo que, nos charcos e lugares úmidos, inflama-se em decorrência da combustão espontânea de ossos ali enterrados. Esse fenômeno natural está presente nas sepulturas dos cemitérios e ao queimar, leva à crença dos que assistam, de espíritos vagando fora dos túmulos, rondando esses lugares sagrados. Guimarães Rosa, em “Grande Sertão - Veredas”, narrou uma passagem em que o fogo-fátuo revela-se num terreno pantanoso do sertão mineiro e assombra os vaqueiros passantes que testemunham o fato.

Da mesma forma ele devasta florestas, com incêndios acidentais ou provocados. Tempos atrás, quando o agricultor começou a cercar suas terras, acerou uma faixa do terreno para proteger a cerca em toda sua extensão, ateando fogo no restante do mato, promovendo queimadas para o plantio, destruindo com isso, sem saber, parte da essência produtiva da terra.

Em “A linguagem esquecida”, Erich Fromm narra um sonho de um paciente que entra numa casa majestosa, com muitas velas acesas, onde, na entrada, um velho porteiro diz: “Ao saírem, estão puros.” Trata-se de um ambiente religioso, no qual se encontra uma mulher. Ali, conceitos de crenças são revelados. Como pano de fundo flui uma música wagneriana: “A Magia do Fogo” (“Feuerzauber”).

“Ao sair da casa (o sonhador) tem uma visão de uma montanha em chamas (e intui) que um fogo que não pode ser debelado, deve ser sagrado.” Em síntese, o paciente, no sonho, “faz uma declaração profunda e clara sobre a religião humanista em oposição à autoritária”.

Nele, a religião deve nascer não da supressão e sim da plenitude da vida. A última afirmação do sonho, de que um fogo que não pode ser debelado deve ser sagrado, segundo Fromm, refere-se à imagem da mulher e resulta no fogo do amor e do sexo.

Muitos acreditam que o paraíso é azul ou verdejante e no inferno queima o fogo eterno. Mas o fogo, antes de tudo, é sinônimo de calor, de vida, como entendiam os antigos, ao aglutiná-lo com outros três elementos fundamentais da natureza: a água, o ar e a terra.

O autor, Irineu Azevedo Bastos, é escritor, historiador e colaborador do Ju Machado Escritório de Arte.

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