Outro dia mencionei neste espaço uma das invenções da Internet, o “flash mob”, aquela mobilização relâmpago, não política, que reúne centenas de pessoas num espaço público para qualquer gesto inusitado, como bater o salto do sapato no chão, aplaudir o pôr do sol ou olhar as estrelas com papel enrolado à guisa de binóculo. Recebi protestos pelo supérfluo da novidade, um “happening” falsamente inteligente proporcionado pela tecnologia.
Tudo bem. Agora surgiu uma performance mais útil. No dia 11 de setembro fui convocado a participar de um bookcrossing, como se diz em inglês. Seguinte: você pega um (ou mais) livro que gostou de ler, sai de casa com ele e o “esquece” num banco de jardim, no ônibus, numa mesa de bar, em qualquer lugar. Deve haver no livro uma mensagem dizendo do que se trata. O apanhador do produto dessa semeadura comunica ao site www.bookcrossing.com que está agindo da mesma maneira. A última vez que acionei o site já havia mais de 500 mil registros. É uma forma do livro ganhar asas, “libertar-se do exílio das estantes”, como diz Affonso Romano de Sant’Anna.
Esse ato me lembra os versos de Castro Alves que vinham impressos no ex-libris do Clube do Livro. Todo mês a editora enviava pelo Correio uma obra diferente para seus associados. Em casa, no meu tempo de criança, ficava esperando minha vez de ler. A irmandade era grande e quando chegava no meu turno o exemplar já estava amarfanhado. A vantagem é que aproveitava as anotações inteligentes do meu irmão mais velho, que já estava na universidade. Obedecendo a escala etária, cada um traduzia as palavras difíceis mediante pesquisa no dicionário e na enciclopédia. Meu esforço para ler e entender Tolstói, Dostoievsky e Machado de Assis foi assim muito atenuado. Esses livros eram a minha novela das oito, num tempo em que a televisão tardava em chegar ao Interior. Quase me esqueço de dizer os versos de Castro Alves: “Ó bendito quem semeia/ livros, livros a man’cheia/ e manda o povo pensar/ o verso caindo n’alma/ é germe que faz a palma/ é chuva que faz o mar”.
O ato de “esquecer” livros pode ir à contramão da indústria cultural, tão criticada por Adorno, cujo centenário de nascimento estamos comemorando. O bonito é que a ação é solitária e solidária, cada vez mais rara numa sociedade do espetáculo, do individualismo e da competição. Lembra também Mateus (Cap. XIII) na parábola do semeador que saiu a semear. “Quando semeava, uma parte das sementes caíram à beira do caminho e vieram as aves e comeram-nas. Outra parte caiu nos lugares pedregosos, onde não havia muita terra; logo nasceu, porque a terra não era profunda, e tendo saído o sol, queimou-se, e porque não havia raiz, secou-se. Outra caiu entre os espinhos e os espinhos cresceram e a sufocaram. Outra caiu em terra boa e dava frutos, havendo grãos que rendiam cem, outros sessenta, outros trinta por um. Quem tem ouvidos, ouça.”
Bauru hoje é sede da II Bienal do Livro, uma iniciativa da Universidade do Sagrado Coração que orgulha a cidade. A irmã Jacinta Turolo Garcia e seus colaboradores, desde que se dispuseram à tarefa de semear cultura e conhecimento, colocaram Bauru no mapa das letras. A Edusc é uma realidade, tem descoberto talentos que até já ganharam prêmios literários e editado autores internacionalmente consagrados. Leva a marca do empreendedorismo da gente bauruense que em nada depende de providências oficiais. Com criatividade e ousadia, a Edusc conquista mercados e gera riquezas materiais e culturais. É a semente lançada com fé, mais forte que as urzes que insistem em nascer e precisam se calcadas no chão antes que se espalhem.
O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC.