Aos 62 anos, o empresário do ramo de ensino José Augusto Vieira Ranieri assume o Executivo bauruense no desfecho de mais uma crise político-administrativa. Na tarde de ontem, tendo dormido apenas três horas - pois foi empossado na madrugada do sábado -, ele conversou com o JC e anunciou que iniciará sua gestão com a ajuda de dois amigos pessoais, que até ontem desconheciam o convite.
Dudu quer a miniequipe para inteirar-se da administração e começar a compor os escalões do governo, o qual, já adiantou, deverá perder 50% dos cargos comissionados hoje existentes. Acenando com a bandeira da boa vizinhança, ele pretendia chamar os 21 vereadores da cidade para um churrasco hoje, em sua casa. “Quero ouvir sugestões”, justificou. Candidato derrotado a prefeito nas eleições de 1976 e 1982, e a deputado em 1986, Dudu, como é conhecido e gosta de ser chamado, foi secretário municipal de Educação (1977) e de Esportes (1983) e, mais recentemente, já como vice de Nilson Costa (PTB), presidiu o Departamento de Água e Esgoto (DAE). Rompido com Nilson desde 2001, Dudu consolidou-se como a principal liderança do PFL local. A seguir, confira os principais trechos da entrevista.
Jornal da Cidade - O senhor já está montando a equipe de governo? Dudu Ranieri - Irei montá-la gradativamente. Tenho algo em mente, mas não daria para antecipar uma lista porque essa missão veio de uma hora para outra. Ficaria mal para mim montar uma equipe baseada em possibilidades. Vai que de repente não acontecesse nada.
JC - Um mínimo de pessoas, no entanto, deverá acompanhar o senhor, até porque seria esquisito chegar sozinho num ambiente que ainda lhe é estranho... Dudu - Isso sim. Tenho comigo meu partido, o PFL, e amigos que trabalharam comigo no DAE, mas não são muitas pessoas. A princípio, posso citar o Roberto Badan (diretor do DAE quando Dudu era presidente) e Said Yusuf Abu Lawi (economista e professor), que são competentes e da minha inteira confiança, mas eu ainda não falei nada com eles. São dois nomes que podem até assumir cargos, mas não existe compromisso. Aliás, não tenho compromisso nenhum com políticos, grupos ou empresas, graças a Deus.
JC - E o resto do governo? O senhor tem previsão de quando vai compor e qual perfil terá essa futura equipe? Dudu – Eu pretendo reunir todos os vereadores amanhã (hoje), na minha casa, durante um churrasco de almoço, para ouvir as sugestões deles. Mas eu também pretendo reunir os vários setores municipais, como Saúde, Cultura, Esportes, Educação, para, coletivamente, selecionar pessoas para assessorar o governo.
JC - O ex-prefeito Nilson Costa foi bastante criticado por priorizar amigos no comando de governo. O senhor deve seguir outro rumo ou fazer uma mescla? Dudu - Eu acho que os colaboradores têm de ser honestos, competentes, sejam eles escolhidos por mim ou pela sociedade. O essencial é ter identidade com as necessidades da população. Todos terão, necessariamente, de saber o que a cidade precisa.
JC - O senhor já elegeu como slogan de governo “Quatro anos em um”. Como pretende executar isso? Dudu - As obras que estão iniciadas serão levadas adiante, até porque só um incoerente agiria de forma contrária. Até a obra do viaduto inacabado poderá ser retomada se, claro, houver recursos disponíveis. Já liguei hoje (ontem) para o deputado Pedro Tobias (PSDB) e ele se colocou à disposição nesse sentido. Já me comprometi a agilizar nesta semana a documentação para a liberação dos R$ 750 mil que serão investidos na duplicação da avenida Edmundo Coube. A mulher do governador (Maria Lúcia Alckmin) vem esta semana para Bauru (sexta-feira) e já está acertado que minha esposa, a Marli, vai recepcioná-la. Enfim, vamos casar as ações administrativas com as de cunho político de aglutinação. Não quero fazer crítica nenhuma ao governo antecessor; quero enaltecer apenas o que será feito daqui para frente.
JC - Mas o que o senhor acha ser efetivamente possível de se fazer? Dudu - Olha, nestes poucos meses que restam de 2003, não sei dos recursos disponíveis. Mas para o ano que vem, teremos um orçamento novinho. Dizer que não se faz nada, é bobagem. É só querer fazer, valendo-se dos recursos próprios e não abrindo mão da economia. Uma coisa que gestor público não faz, por sinal, é economia. Normalmente, se aumenta impostos e loteia os cargos que se tem em mãos. Eu não estou preocupado com reeleição, embora não descarte essa possibilidade. Eu quero ver se consigo administrar Bauru com a metade dos cargos de confiança que existem hoje. Por uma questão de coerência, inclusive, acredito que todas as pessoas que têm cargos comissionados deverão colocá-los à disposição já a partir de amanhã.
JC - Há possibilidade de o senhor manter alguém do governo cessante no seu secretariado? Dudu - Claro. Isso será avaliado. Não quero descartar ninguém que seja competente, honesto e tenha sensibilidade política para resolver os problemas municipais. Mas antes de tudo, terão de ser pessoas que têm a minha confiança, é evidente.
JC - O senhor vai acatar indicações de vereadores? Dudu - Veja bem. Eu vou chamá-los à minha casa para que façam sugestões. Eu quero dividir as responsabilidades, pois está longe de mim ser um ditador. Não é meu perfil.
JC - Em tese, o senhor teria o apoio dos vereadores que votaram a favor da cassação, mas qual será a relação com seus potenciais opositores? Dudu - Eu não tenho nada contra aqueles que votaram contra a cassação, em absoluto. Pelo contrário, pretendo trabalhar com eles em conjunto. Eu encaro as divergências políticas como algo natural. Ser oposição não é crime, mas o que eu reprovo veementemente é a sacanagem, aqueles que fazem as coisas com maldade. Pode escrever aí que eu receberei com a maior naturalidade do mundo as críticas construtivas. O administrador público deve ouvir as críticas e, percebendo que elas têm procedência, deve corrigir o que está errado.
JC - O senhor disse que pretende chamar a sociedade para ouvir sugestões. Recentemente, grupos ligados aos setores industrial e comercial saíram em defesa de Nilson Costa e da governabilidade. O senhor também pretende chamá-los? Dudu - Vamos ouvir todos. Em relação a um grupo que se manifestou, tenho restrições (disse em referência a nomes ligados à indústria). Trata-se de um grupo que não é autêntico e sem representação na sociedade; são pessoas que apenas ocupam cargos nas entidades de classe. Não aceitei ser indiretamente chamado de oportunista, porque nunca o fui. Nasci em Bauru, filho de pais igualmente nascidos aqui, temos um trabalho de quase 100 anos na cidade e nunca nos locupletamos de nada. O povo de Bauru é trabalhador e é assim que quero ser respeitado.
JC - Olhando para a cidade hoje, qual obra o senhor elegeria como prioridade? Dudu - Eu, que estive no DAE, acho que duas são prioridades: a reforma da Estação de Tratamento de Água (ETA), que, sem aumento da tarifa, já estaria pronta se eu ainda estivesse na presidência da autarquia, e o tratamento do esgoto.
JC - O que a cidade pode esperar do Dudu Ranieri prefeito? Dudu – O Dudu prefeito será o de sempre. Jamais esse poder efêmero vai me subir à cabeça. Acho que a cidade pode esperar uma pessoa dedicada, porque sempre entrei de corpo e alma em todas as empreitadas que assumi na vida. Se vai dar certo ou errado, só Deus sabe. Vou orar para tomar decisões corretas. Vontade não faltará.
JC - O senhor vai se desligar de suas atividades particulares para dedicar tempo exclusivo à prefeitura? Dudu - Vou. Trabalho à frente de três escolas. No Liceu, somos eu e mais dois irmãos, que têm condições de sobra para administrá-lo. Na faculdade - Faculdades Integradas de Bauru (FIB) -, trabalham eu, meu filho e minha esposa, e já havia delegado poderes para eles tocarem sem minha ajuda. A Domus, que é escola infantil, tem minha mulher no comando e assim continuará. Eu vou, inclusive, deixar a presidência da Hípica (Sociedade Hípica de Bauru) para poder me dedicar inteiramente às necessidades da cidade.
JC - O senhor comentou há pouco que sua esposa, Marli, irá recepcionar a primeira-dama do Estado, Maria Lúcia Alckmin, que estará em Bauru esta semana. Ela pretende colaborar ativamente com o seu governo? Dudu - Eu acho importante que ela me apóie. Neste evento, em particular, que vai reunir primeiras-damas de toda a região, a presença dela será ainda mais importante e bem-vinda.