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Entrevista da Semana - Colesterol: esperar 'sinal' pode ser fatal

Ronaldo Schiavone
| Tempo de leitura: 5 min

Embora não exista um estudo amplo sobre o número de brasileiros que sofrem de colesterol alto, a estimativa é de que a doença atinja cerca de um terço da população adulta do País. O coordenador científico do setor de cardiologia da Faculdade de Medicina de São José do Rio Preto, Paulo Roberto Nogueira, esteve participando de um evento em Bauru e alertou sobre a importância da prevenção.

“A pessoa não pode esperar pelos sintomas para dosar o seu colesterol. Isso pode ser fatal. É preciso saber, já na juventude, se ele é elevado. Há grupos com mais propensão para o problema. São aqueles que têm parentes próximos com a doença”, afirma.

Nogueira, que também é coordenador do setor de coronariopatia do Instituto do Coração (Incor) de São José do Rio Preto, divulga um medicamento que promete ajudar no combate ao colesterol alto. “Existem dados da literatura médica mostrando que, em mais de 70% dos pacientes em que se adicionou essa droga ao tratamento habitual, se atingiu os níveis ideais”, diz.

Confira, a seguir, os principais trechos da entrevista concedida pelo cardiologista ao JC.

Jornal da Cidade - O senhor esteve recentemente em Bauru para participar de uma palestra e lançar um novo medicamento de combate ao colesterol alto. Como ele funciona? Paulo Roberto Nogueira - Essa é uma droga inovadora, pois tem um mecanismo de atuação mais eficaz do que temos utilizado atualmente. Como o tratamento do nível de colesterol elevado tem metas a serem atingidas e nós sabemos os níveis ideais que devem ser mantidos e como estabelecê-los, ela certamente vai nos auxiliar a alcançar essas metas. Ela é utilizada em associação com o tratamento padrão, que são as chamadas estatinas. A droga tem um mecanismo de ação que é diferente. O que ela faz é bloquear a absorção do colesterol intestinal. É um mecanismo de ação recentemente descoberto.

JC - Existe uma estimativa de quantos brasileiros sofrem de colesterol alto? Nogueira - Não há um levantamento nacional, mas temos várias estimativas regionais mostrando que entre 30% e 40% da população das grandes cidades têm níveis acima do desejável.

JC - É possível dizer que há um avanço preocupante dos casos de colesterol alto no País? Nogueira - Eu não sei se podemos dizer que há um aumento. O que sabemos é que há uma preocupação cada vez maior. Hoje, temos dados estatísticos bastante significativos evidenciando que o aumento dessas taxas é altamente deletério, ou seja, os níveis de colesterol aumentado são muito ruins. Temos consciência de que é grave e muitas pessoas não têm o nível ideal, mas não dá para dizer que isso vem crescendo. Nós sabemos, por exemplo, que nos países em que essas estatísticas são conhecidas de maneira mais adequada, pois já existem há muitos anos e são um hábito, esses níveis são alarmantes. Nos Estados Unidos, há uma preocupação muito grande com o problema. A população de lá é extremamente obesa. Lá, sabe-se que isso vem crescendo e, como há um custo para a saúde que exige dinheiro público, tem se adotado várias condutas para tentar reverter esse quadro. Os dados de saúde que temos aqui ainda não permitem esse tipo de avaliação, mas provavelmente, estejamos seguindo esse mesmo caminho. A nossa alimentação e os nosso padrões são parecidos com os deles.

JC - O que está sendo feito para se evitar que o número de pacientes com a doença cresça? Nogueira - São campanhas de alerta. A Sociedade Brasileira de Cardiologia tem feito várias no sentido de esclarecer a população. O grande problema é que, muitas vezes, as pessoas costumam aguardar sintomas e, no caso da aterosclerose, a espera pelo sintoma pode ser fatal. Muitas vezes, o primeiro sintoma é a morte. Quando você analisa as estatísticas das pessoas que tiveram morte súbita, se verifica que de 60% a 80% dessas pessoas não tinham nada. Não tinham dor no peito, falta de ar. O primeiro sintoma foi a morte. Nas doenças cardiovasculares, esperar pelos sintomas é extremamente complicado. As pessoas não têm o hábito de fazer a medicina preventiva.

JC - Há pessoas que não possuem alimentação saudável e, mesmo assim, não apresentam a doença. Por que? Nogueira - A maior parte do colesterol não vem da dieta. O colesterol, aliás, não é um vilão. Ele está presente em grande parte das nossas células. Só que, quando ele se encontra em níveis acima do recomendado, começa a se acumular em locais indesejados. Mesmo que você faça atividade física, dieta, já existe uma probabilidade de atingir esse quadro.

JC - Quais as dicas que o senhor daria para quem quer evitar o problema? Nogueira - Basicamente, ter uma dieta não rica em alimentos com gordura e praticar uma atividade física regular. Além disso, o paciente precisa conhecer o seu nível de colesterol para saber se ele está dentro dos níveis indicados. Até os 19 anos, precisa ter dosado pelo menos uma vez. As crianças cujos pais ou parentes têm tendência para o problema precisam estar mais atentas. O indivíduo que dosou normal pode fazer exames a cada cinco anos. O que detectou que tem alteração, deve ser acompanhado de perto pelo médico.

JC - Antes, a visão que se tinha era de que a doença estava associada a adultos e idosos, mas hoje muitas crianças também apresentam o problema. Por que houve essa mudança? Nogueira - Não é uma questão de ter aumentado o número de crianças com colesterol. No nosso meio, o que tem havido é uma preocupação maior no sentido de estar se conhecendo esses níveis. Estamos em uma fase de sucesso na prevenção de pacientes. Cada vez mais eles têm nos procurado para saber se estão dentro dos níveis desejáveis. Não dá para dizer que há um aumento real de crianças com a doença. Estamos em uma fase de melhora de conscientização da população. Muitas crianças têm vindo fazer o exame. Obviamente, isso tem aumentado o número de diagnósticos.

JC - O que o senhor pensa das leis que pretendem banir os alimentos fritos das cantinas escolares? Nogueira - Acho que levar a esse tipo de situação faz com que todos os indivíduos tenham o mesmo padrão comportamental sem saber, na verdade, se eles apresentam o mesmo diagnóstico. O que poderia haver é que a venda só seria permitida com a orientação dos pais. Para que a criança possa ter acesso a qualquer coisa fora do padrão de alimentação, por exemplo, ela precisaria de uma autorização deles. Não acho correto a obrigatoriedade de todos os alunos terem que seguir a mesma conduta.

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