Nunca o bordão “a escola é o complemento do lar” foi tão atual. Os alunos têm passado cada vez mais tempo nos estabelecimentos de ensino e muitos transformam esses locais em refúgios onde procuram orientação para enfrentar problemas que antes eram debatidos em família. Buscar um equilíbrio entre as questões que cabem aos pais e aos professores transmitirem é o grande desafio entre as duas partes.
Para a coordenadora pedagógica do Colégio Fenix, Vera Casério, é preciso que se estabeleça uma parceria. “A família e a escola têm a obrigação de criar uma via de mão dupla para que ambos colaborem. Tanto a escola deve ajudar na educação familiar, quanto a família deve trazer para a escola informações para que a gente possa desenvolver o trabalho”, diz.
A professora de psicologia da educação da Universidade Estadual Paulista (Unesp) Marisa Meira afirma que há casos, porém, em que escola e família acabam invadindo limites restritos a um deles. “Isso pode acontecer dos dois lados. Tanto a família pode delegar à escola tarefas que são de sua responsabilidade, como o contrário”, afirma.
Ela exemplifica casos em que isso pode ocorrer. “A formação de atitudes e valores são específicas da família, mas muitas vezes, essa responsabilidade é empurrada para a escola. Da mesma forma, já presenciei escolas que chamam os pais porque as crianças não aprendem. Isso é tão absurdo quanto eu, como mãe, pedir para o professor fazer com que meu filho escove os dentes”, diz.
Vera Casério concorda. “Precisa ficar claro que a escola tem as suas funções específicas. Ela não pode assumir o papel da família, e sim colaborar. Quando os alunos nos procuram com um problema, tentamos resolver dentro das possibilidades. Se for de ordem familiar, pedimos para que discutam isso em casa e, se for preciso, os acompanhamos para falar com os pais”, explica a educadora.
Ela conta quais são os problemas mais comuns relatados pelos alunos. “São questões de ordem emocional, familiar, de socialização, companheirismo e dificuldades de adaptação, pois às vezes, o aluno vem de outra escola e já encontra os grupos formados. Eles identificam nos professores amigos e companheiros e os procuram para desabafar”, declara.
Uma situação difícil de se imaginar há algumas décadas. “Há 40 ou 50 anos, o modelo de escola era totalmente tradicional e não permitia nenhum tipo de expressão de sentimentos ou afetos, seja positivo ou negativo. A escola não era lugar para essas coisas”, afirma Marisa Meira.
Pais
Vera Casério nota que, nos últimos anos, muitos pais também passaram a compartilhar os seus problemas com a escola. “Quando eles encontram respaldo, a procura começa a ficar bem maior”, revela.
Para a psicóloga Marilene Krom, esse é um fenômeno que deve ser apoiado. “A escola pode ser sensível também ao problema dos pais, ouvindo-os e encaminhando-os sem perder os seus objetivos prioritários”, afirma.
A opinião é compartilhada pela psicóloga Marisa Meira. “Eu acho muito bom se a escola puder ser um espaço acolhedor para os pais. Se isso ocorre, é porque ela deu essa abertura. É lógico que, muitas vezes, a escola nada pode fazer com relação àquela demanda. É a hora de fazer um encaminhamento, seja para o médico, psicólogo ou serviço social”, diz.
Segundo ela, a alteração nesse perfil das escolas está diretamente ligada a mudanças na própria estrutura familiar. “A maior parte das mães precisa trabalhar e você tem uma sociedade que exige uma formação mais complexa. Tudo isso empurra a escola para assumir, necessariamente, um papel diferente”, opina.
Marisa afirma que esse novo sistema pode trazer benefícios. “A escola pode assumir um papel mais efetivo na vida das pessoas. Antes, os alunos iam só para aprender conteúdo, o que fazia dela um lugar árido e chato. Hoje, você tem a oportunidade de encontrar uma escola em que as crianças e os jovens se sintam mais acolhidos e respeitados”, declara.
Ela lembra, porém, que também há desvantagens. “Se a escola não tiver muito claro o seu projeto pedagógico, pode se perder e trocar aquilo que é importante por acessório. O aluno faz tanta coisa, se envolve em tantos projetos, que às vezes, o trabalho pedagógico sofre conseqüências”, diz.
Lar
A pedagoga Marisa Santos, da Universidade do Sagrado Coração (USC), afirma que é preciso deixar claro que o estabelecimento de ensino pode até ser o complemento da família, mas nunca será um segundo lar. “O calor da mãe e do pai não tem professor que substitua, embora ele possa contribuir. A relação familiar, que é muito importante para o adolescente, não consegue ser preenchida por nenhuma escola”, opina.
A psicóloga Marisa Meira concorda. “A escola é um lugar muito importante, até para que as crianças e adolescentes aprendam a lidar com realidades diferentes daquela que existe em casa, mas não digo que chega a ser um lar”, afirma.
Ela acredita que nem mesmo o fato de alguns alunos passarem mais tempo na escola do que em casa muda essa situação. “A questão mais importante não é quanto tempo a gente passa com os filhos, e sim o que a gente faz com esse tempo. Há famílias em que a mãe fica quase o dia todo com o filho, mas gritando e batendo nele. Há outras que ficam somente à noite, mas usam bem esse período e conseguem se comunicar”, diz.