“Não mudou quase nada. Muda o material, mas não muda a forma de consertar.” É o que afirma o sapateiro Cirino Neto, 53 anos, sobre as técnicas empregadas no conserto de sapatos - uma atividade que resiste ao tempo.
Foi como aprendiz que Cirino começou a trabalhar no ramo, há 35 anos. “De primeiro, era assim que se aprendia uma profissão. Demorou cerca de quatro anos para eu aprender bem. Tinha a teoria e depois a prática”, explica.
No começo, Cirino não gostava do ofício e chegou a desistir de ser sapateiro para tornar-se desenhista. Pouco tempo depois, voltou a consertar calçados e montou sua própria sapataria, nos Altos da Cidade, onde trabalha há 30 anos. “Hoje, eu gosto mesmo e não largaria essa profissão”, afirma.
No começo, a sapataria de Cirino era bastante procurada para confecção de calçados novos. Cada par demorava, em média, um dia para ficar pronto. “Quem comprava era a pessoa que tinha um pouco mais de posse porque era um sapato muito caro. Fica mais caro que na loja”, afirma.
Atualmente, o forte do trabalho do artesão são os consertos. “Não vale mais a pena fazer sapato novo. É mais resistente, mas é mais caro. O conserto rende mais”, expõe.
Quanto à técnica, Cirino diz que continua a mesma de muitos anos atrás, embora os materiais utilizados na confecção de calçados tenham mudado bastante. “Antes, era quase só couro. Agora, há mais sintéticos”, explica o sapateiro.
Trabalho não falta a Cirino, que chega a atender 70 pessoas por dia. Por esse motivo, ele contratou dois auxiliares. “Muito, muito e muito trabalho. Não dou conta. Tem dia que quase não dá para trabalhar. Fico só recebendo encomendas”, conta o profissional.
Além de atender fregueses dos Altos da Cidade e de outros bairros de Bauru, Cirino recebe pessoas da região - Agudos, Lençóis Paulista, Arealva e Iacanga.
Sola, meia-sola, troca de salto e remendos são algumas das tarefas que fazem parte do cotidiano dele. Os preços dos serviços variam de R$ 3,00 a R$ 30,00.
As décadas de experiência não desanimam o sapateiro, que pretende seguir a rotina de consertar sapatos das 7h às 19h ouvindo músicas em seu rádio. “O que eu penso é que tenho que correr e não posso parar para dar conta do trabalho. Eu fico até quando eu agüentar. Tendo saúde, vai que vai”, diz.
Cirino acredita que sua profissão dificilmente será extinta. “Mas vai diminuir bastante. Tem muito sapato descartável hoje. Você paga R$ 10,00 e não tem conserto. Pode jogar fora. O conserto fica mais caro. Antigamente, os sapatos eram mais fortes; duravam mais. Hoje, se durar um ano é muito”, reforça.
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Benzedeira
A casa de Iraci Albertina de Oliveira, no Parque Vista Alegre, é o pronto-socorro de muita gente que vive em diversos bairros da cidade.
A senhora de 83 anos de idade trabalha há 43 como benzedeira. Sem cobrar nada de quem ela ajuda, recebe dezenas de pessoas semanalmente em sua residência. “Tudo o que eu faço é benzimento. É só oração. Eu gosto porque eu ajudo os outros”, diz Iraci.
A benzedeira atende muitas crianças, levadas pelos pais para receberem as orações de dona Iraci. “Eu gosto de atender o pessoal e de conversar. Eu explico e ensino a dar chazinhos para as crianças. Dou chá de hortelã para quando estão com vermes, por exemplo”, expõe.
Nesta semana, a moradora do Vista Alegre atendeu um universitário que, segundo ela, chegou com as pernas vermelhas e inchadas. “Eu o benzi e, no dia seguinte, ele ligou dizendo que estava bem”, afirma.
A idosa é considerada conselheira no bairro, onde mora há 48 anos, e diz que as pessoas gostam muito de suas palavras. “Tem gente que vem na minha casa, sente-se bem aqui e não tem mais vontade de sair”, conta.
Além de cuidar da casa sozinha, Iraci muitas vezes passa o dia todo recebendo e benzendo pessoas conhecidas. Principalmente às sextas-feiras. “Me sinto cansada, mas as pessoas que vêm aqui não voltam sem benzer e sem conversar comigo”, garante.
Na época em que Iraci, que é natural do Mato Grosso, mudou-se para Bauru, havia muitas benzedeiras na cidade. “Agora, acabaram as benzedeiras. Não tem mais. Mas as pessoas continuam procurando e acreditando.”
Prova disso é que Iraci atende moradores de bairros como Geisel, Redentor e Alto Paraíso.