Para produzir medicamentos e cosméticos seguros, eficazes e de qualidade, a ciência farmacêutica precisa comprovar a ação terapêutica de inúmeras substâncias encontradas na natureza. Confirmada a propriedade medicinal, o segundo passo é estabelecer qual é a melhor forma de aplicar cada substância para se obter o resultado esperado. É aí que entra a indústria.
“Sem dúvida, os vegetais e outros alimentos são ricos em substâncias com propriedades terapêuticas - algumas já comprovadas e muitas em estudo. Mas para obter o melhor efeito terapêutico, você precisa ter uma base e uma concentração apropriadas e nem sempre elas são eficazes no produto ‘in natura’”, salienta a farmacêutica Letícia Carpentieri Rodrigues, professora da Universidade do Sagrado Coração (USC).
Base é o nome que se dá ao produto que vai veicular a substância ativa. Nesse caso, pode ser um creme, uma pomada, um gel, um líquido e assim por diante. A escolha da base pode acelerar ou retardar a absorção de uma substância, por exemplo.
A professora cita um artigo do pesquisador K. Drieu para comentar que o principal interesse dos profissionais no meio científico é extrair essas substâncias presentes na natureza e comprovar a eficácia de cada uma delas. Isso envolve dose e suporte (base), para que se obtenha não só eficácia, mas também segurança para o paciente.
“É preciso lembrar que os vegetais são uma mistura de componentes e, junto com a substância ativa, pode haver substâncias tóxicas. É o caso da babosa, que tem uma importante ação hidratante, mas também apresenta ácidos esfoliantes que, mal usados, podem causar até lesões na pele”, adverte.
Rodrigues destaca que as sementes de fruta, por exemplo, trituradas, podem funcionar como excelente esfoliante quando combinadas com uma massagem (ação mecânica). “Mas se você usa uma concentração muito alta, você pode agredir a pele”, completa.
Outra observação da farmacêutica é com o uso de frutas cítricas sobre a pele. Segundo ela, o ácido cítrico extraído do suco destas frutas pode ser usado para promover renovação celular (um peeling suave). No entanto, é preciso retirar muito bem a substância da pele e usar um filtro solar depois da aplicação, pois o sol combinado com o ácido pode resultar em manchas.
Rodrigues observa que o desenvolvimento de produtos cosméticos é regido por uma legislação específica determinada pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária - nos mesmos moldes do que ocorre com os medicamentos.
“Um dos itens da regulamentação é a lista restritiva de substâncias. Ela classifica dezenas de produtos quanto ao grau de risco e determina a concentração máxima permitida para adultos e crianças. O extrato de própolis, por exemplo, usado ‘in natura’, é limitado a 2,5% e está proibido em produtos de uso infantil”, cita.
Sobre o uso de receitas caseiras, Rodrigues sugere cautela e orienta que as pessoas usem somente produtos cuja segurança já esteja comprovada. “No tempo do meu avô, por exemplo, usava-se cloreto mercuroso para tingir cabelos. Hoje a gente sabe que o mercúrio é tóxico ao ser humano e que é facilmente absorvido pela pele”, ressalta.
Na opinião da farmacêutica, a melhor receita para se conquistar a beleza é ter uma alimentação balanceada e fazer uma hidratação constante da pele. “Além de ingerir muita água, frutas, verduras e legumes, deve-se usar óleos de amêndoas, de semente de uva ou loções industrializadas sobre o corpo. A gordura forma um filme que impede a desidratação do tecido”, afirma.
“Outra regra essencial é fugir das situações que agridem a pele. Principalmente a exposição ao sol nos horários extremos. O sol é o principal fator causador do envelhecimento e seu efeito é cumulativo - só aparece a longo prazo”, encerra.