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Profecias de fim de inverno


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Profecias ecoam no cenário nacional. Estamos chegando ao nível de primeiro mundo. Os EUA ainda são invencíveis na parada. Os adoradores do sol e de cascavéis do Arizona, meus preferidos, são imbatíveis. As seitas de origem mórmon, poligâmicas, com saltitantes esposas, atiçam nossa imaginação lusitana. Não podemos compará-las às triviais seitas de Belém do Pará de comedores de órgãos sexuais de crianças. Nem às seitas de Brasília dos templos do Sol que aguardam a chegada de seres interplanetários. Sobre naves interplanetárias e outras civilizações galácticas, temos milhares e variadas crenças e associações legais entre os irmãos do norte. Lá as crenças são legais e organizadas. É primeiro mundo. Fogem à regra os matutos libertários de Montana e de outras plagas das Montanhas Rochosas. De vez em quando promovem banhos de sangue pelo país afora. A explosãozinha de Oklahoma foi bom exemplo. São modernos, fogueteiros e hiper-liberais. Deixam muito para trás os desvarios dos radicais petistas e do MST que insistem na revolução proletária e no centralismo democrático.

Todas estas seitas foram exportadas para o Brasil. Caminhamos, com atraso de século e meio, na curtição das seitas. Agora é que pululam para valer em nosso fervilhante e criativo meio social. As seitas encontraram terra fértil.

Pululam, hoje, pelo país afora, mais que pululavam no início do século passado na sociedade americana. A coisa pega lá, como pega aqui, até nas classes abastadas da angustiada burguesia aflita. Quem gosta do tema poderá ler, para morrer de rir, os livros de Tom Wolfe. Se não gostam da ironia cáustica do delicado escritor, enveredem pelos livros geniais de John Updike ou pelos ensaios históricos e políticos de Gore Vidal. Vão entender bem o rico cenário social e político americano e olhar críticos para o umbigo.

Podemos esticar este papo por quilômetros. Voltemos ao nosso berço esplêndido e às nossas nacionais agruras. Acabamos de comemorar o glorioso 7 de Setembro! Comemorações dignas, em todo território nacional. Desde o saudoso tempo dos militares, não se via coisa igual. O “nosso” presidente, Lula da Silva, baixou decreto, esta semana, obrigando ao canto semanal do “ouvirudu” em todas as escolas, com preito à bandeira brasileira ! Quer fortalecer nossas mais caras crenças nacionais. Arrufo nacionalista arrepia desde as comemorações maviosas de Nuremberg, imortalizadas pela grande cineasta Leni Riefenstahl, que bateu as botas nazistas esta semana. Não vamos lembrar os desfiles de Stalin, no primeiro de maio, na Praça Vermelha, para não causar mais equívocos e confusão na mente de nosso comportado e catequizado povo brasileiro.

No caldeirão fervente da política brasileira, cozinhamos as profecias de inverno. Adicionamos, singelamente, o desfrute do poder e a curtição das delícias do Palácio do Planalto e da Granja do Torto, muito justificáveis, do grande líder e da dedicada trupe. Acrescentamos o ingrediente principal: os prazeres da fala e dos discursos, próprio dos grandes líderes, onde reinam as imagens triviais de auto-ajuda e as promessas aos carentes, com metáforas prosaicas e populares, cuidadosamente agendadas pelo Goebbels de plantão, o baiano Duda Mendonça. Condimentemos com a crença crescente e desmedida de que cumpre o grande destino histórico de dirigir e orientar o futuro do Brasil. Salta uma sopa cálida para nossas esperanças geladas de fim de inverno... (O autor, Ulysses Guariba, é professor da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP)

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