Jaú - Inconformado com o fato de poder ver o filho Renan de Oliveira Bezerra, 3 anos, apenas a cada 15 dias, o auxiliar de serviços gerais Marco Antônio Sboldrim Bezerra, 31 anos, cortou os pulsos do menino e depois tentou suicídio. O crime ocorreu na fazenda São Marcelo, anteontem, em Jaú (47 quilômetros a Leste de Bauru).
A ação foi premeditada e já fazia parte dos planos do pai desde o último domingo em que esteve com o filho, há duas semanas.
Deitado em uma cama de um hospital da cidade, Bezerra narrou aos policiais civis, com detalhes, como tudo aconteceu.
Com o pulso esquerdo imobilizado e curativos no braço e no pescoço - resultado da tentativa de suicídio -, Bezerra contou que nunca aceitou a decisão judicial que restringiu seu contato com o filho.
Há cerca de seis meses, logo após ter se separado da mulher, a faxineira Valdirene Cruz de Oliveira, 30 anos, Bezerra recebeu permissão da Justiça para passar apenas um dia a cada duas semanas com o filho. Os encontros deveriam ser sempre aos domingos, das 8h às 18h.
Em algumas ocasiões, o encontro ficava prejudicado, segundo o pai, porque ele tinha que trabalhar no domingo e não podia brincar com o filho.
Segundo Bezerra, quando ele era chamado para trabalhar no domingo em que deveria estar com o filho, ele pedia para a ex-mulher ficar com o menino no sábado. Mas a mãe nunca teria concordado com isso, segundo declarou o auxiliar de serviços gerais.
Foi esse descontentamento que o levou a planejar o assassinato do filho e depois o dele próprio. Nas palavras dele, se não era possível ficar com o menino nesta vida, poderiam ficar juntos na outra. Foi pensando desta forma que o pai chegou à conclusão que matando o filho e depois se matando tudo estaria resolvido.
Na manhã de anteontem, quando foi buscar o filho, na casa da ex-mulher, que fica na mesma fazenda, a poucos metros da dele, Bezerra já estava com tudo planejado.
Saiu para dar uma volta com o garoto e levou consigo uma faca e um cano de ferro de aproximadamente 50 centímetros de comprimento.
Depois de algum tempo caminhando e brincando com o menino, parou debaixo de uma árvore, cercada por mato seco e alto. Ali, sentou sobre a raiz da árvore e colocou no colo o filho.
Em seguida, de acordo com a narração feita por ele no hospital, pegou a faca, cortou o pulso da sua mão esquerda e os dois pulsos do filho. Bezerra disse que tentou cortar também o pulso da sua mão direita, mas não conseguiu. Segundo ele, depois de ter cortado o pulso não tinha mais forças para fechar a mão esquerda.
Então, com a mão direita voltou a se ferir e fez novo corte no braço esquerdo, acima do pulso, e também no pescoço.
Vendo que o garoto estava sofrendo, segundo a versão do pai, ele pegou o cano de ferro e bateu por três vezes na cabeça do filho.
O crime, segundo Bezerra, aconteceu na manhã do domingo. Ele passou quase o dia todo deitado ao lado do filho, que já estava morto. À tarde, decidiu caminhar até a linha férrea que passa perto da fazenda.
A idéia, segundo ele, era deitar sobre a linha e esperar pelo trem. Entretanto, não conseguiu concretizar o plano. Bezerra disse que a visão ficava escura depois de andar alguns metros e ele acabava caindo.
Mesmo perdendo sangue, ele sobreviveu à tentativa de homicídio. Um irmão o encontrou caído na manhã de ontem, por volta das 6h45. Bezerra estava a cerca de dois quilômetros da casa, onde reside com a mãe desde que separou da mulher.
Ele foi levado ao hospital e a informação chegou até a polícia. O delegado Edson Maldonado compareceu ao local, ficou sabendo do homicídio e foi até a fazenda.
No local indicado pelo pai, ele encontrou a criança morta, a barra de ferro, uma cartilha e uma chupeta. A faca, segundo Bezerra, foi jogada em um brejo e até à tarde de ontem ainda não havia sido localizada pela polícia.
O acusado foi preso em flagrante e vai responder por homicídio qualificado, cuja pena varia de 12 a 30 anos de prisão. De acordo com o delegado Benedito Antônio Valencise, por se tratar de crime hediondo, o acusado não tem direito aos benefícios da lei e deve aguardar julgamento detido na Cadeia Pública de Jaú.
No hospital, enquanto não recebe alta, Bezerra receberá escolta da Polícia Civil.
Bom comportamento
A reportagem não conseguiu entrar em contato com a família do acusado nem com a ex-mulher dele e mãe do menino. Mas, de acordo com o proprietário das estufas de verduras, na fazenda São Marcelo, que se identificou apenas como Kiko, o crime deixou todos muito surpresos.
Segundo ele, Bezerra trabalhava nas estufas havia três anos e nunca se comportou de forma agressiva. “Ele adorava o filho. O garoto vivia brincando aqui na fazenda, sempre cheio de vida. Eu ainda não acredito no que aconteceu. Jamais poderia esperar por isso”, disse.