Regional

Índios protestam por verbas em Avaí

Michelle Roxo
| Tempo de leitura: 4 min

Avaí – Lideranças indígenas do Centro Oeste do Estado reuniram-se ontem na aldeia de Kopenoty, em Avaí (39 quilômetros a Noroeste de Bauru), com o objetivo de discutir as dificuldades das comunidades e protestar contra a falta de verbas do governo federal para o desenvolvimento das atividades agrícolas nas aldeias.

O encontro contou com a participação de representantes terenas e guaranis das cinco tribos de Avaí: Kopenoty, Nimuendaju, Pyhau, Ekeruá e Tereguá, além das aldeias Vanuiri, na região de Tupã, e Icatu, em Braúna. Também estiveram presentes funcionários da Fundação Nacional do Índio (Funai).

Segundo o chefe de posto da aldeia Kopenety, Edenilson Sebastião, o governo federal repassou nesse ano apenas R$ 60 mil para as aldeias da região, sendo que o orçamento previsto pela Funai seria de cerca de R$ 150 mil. Em 2002, as aldeias contaram com verbas no valor de R$ 110 mil.

Sebastião afirma que atualmente as famílias indígenas sobrevivem por meio da agricultura e dependem exclusivamente dos repasses para o plantio.

“Os índios não tem como fazer financiamento em banco, não têm um programa específico para atender essa parte agrícola. Se o governo não investir e repassar o recurso para Funai, os índios ficam sem plantar”, relata.

Com a falta de investimentos, afirma o líder, muitos índios ainda hoje são obrigados a sair das aldeias para desempenhar a função de bóia-fria em fazendas vizinhas e garantir a sobrevivência das famílias. “Não é justo a gente ter essa terra e não ter recursos para trabalhar nela”, protesta o terena Benedito, cacique da aldeia Ekeruá, que reúne 27 famílias.

De acordo com o cacique Daran, da tribo Tereguá, ano a ano os recursos repassados pela Funai para as aldeias têm sido reduzidos. Na opinião dele, é motivo de vergonha paras as famílias de Araribá não conseguir aproveitar o potencial de suas terras, que somam cerca de 1.900 hectares. “Nós não conseguimos plantar ainda 200 hectares”, conta.

O líder afirma que os índios não querem políticas assistencialistas, mas sim apoio para o desenvolvimento de uma atividade que, num futuro próximo, possa lhes trazer auto-sustentação. “Queria lembrar ao presidente (Luiz Inácio Lula da Silva) que nós não queremos cesta-básica, queremos recursos para plantar na nossa terra.”

Por meio da verba, as comunidades indígenas pretendem ampliar as áreas de plantio, além de adquirir sementes, adubo e óleo diesel para o trabalho mecânico na lavoura.

O objetivo das lideranças é encaminhar as reivindicações apresentadas no encontro de ontem diretamente ao governo federal. Os índios não descartam a possibilidade de levá-las em caravana até Brasília.

Legítima

Segundo o adminstrador regional da Funai, Amauri Viera, a reivindicação dos índios é legítima e reflete as dificuldades que vem sendo enfrentadas pelas comunidades da região. “Esse início de exercício em 2003 está sendo difícil por duas coisas: a Funai não teve a programação agrícola aprovada na íntegra. E os recursos que tem sido liberados não têm obedecido um critério de liberação mensal”, afirma.

De acordo com Viera, a Funai de Brasília alega que, com a mudança de governo, houve uma retração da liberação de recursos para projetos em todo o País. Entretanto, ele afirma que na região Centro Oeste as famílias têm sido particularmente atingidas. “Nessa região, o básico é a agricultura. E se você não fortalece a agricultura, a situação fica complicada”, conclui.

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Mudança

Desde o ano passado, o desenvolvimento da agricultura tem sido a tônica das aldeias de Araribá para driblar as dificuldades. Além de atender as necessidades locais, os índios buscam produzir excedentes para a comercialização e o desenvolvimento das aldeias. O projeto, estimulado pela Funai, pretende envolver todas as famílias de Avaí, que totalizam cerca de 600 índios, das etnias terenas e guaranis.

As comunidades abraçaram a idéia e deram início ao cultivo de mandioca, batata doce, melancia e abobrinha. Neste mês, está previsto o plantio de arroz e feijão. “Esse ano nós queríamos ampliar essas lavouras para ter recursos próprios para tocar o plantio, sem depender de recursos do governo”, afirma o cacique Daran.

Entretanto, com a queda de repasses de verbas federais, as aldeias temem ter essa iniciativa prejudicada, ou até interrompida. “Quando você paralisa isso há uma frustração grande tanto da Funai quanto dos próprios índios, que acreditaram nessa proposta de desenvolvimento da agricultura”, afirma o diretor regional Amauri Vieira.

O cacique Daran lembra que, ao contrário das gerações passadas, os índios de hoje não têm condições de sobreviver da caça e da pesca. “A nossa aldeia está devastada, não tem mais caça, não tem mais peixe, não tem mais rio. Nós temos que sobreviver com a agricultura”, afirma.

As terras de Araribá também sofrem com a falta de matéria-prima para a exploração do artesanato - prática rentável e bastante desenvolvida em outras aldeias do Estado, como por exemplo no Litoral Norte.

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