Tribuna do Leitor

A moeda dos pobres


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A recente reunião da Organização Internacional do Comércio (OMC), realizada em Cancún, no México, propôs ao leitor o seguinte enigma: se não houve progresso em relação aos subsídios à agricultura dos países ricos (Estados Unidos, Canadá, União Européia, Suíça e Japão), objetivo central do evento, quem ganhou e quem perdeu com isso? Os apressados dirão que foram os ricos, já que o que mais interessava aos pobres - a redução dos subsídios agrícolas - nem sequer foi tratado. Tecnicamente, a resposta é correta. Mas, em termos políticos, não se pode afirmar o mesmo, sabendo-se que, desta vez, o bloco dos pobres e emergentes, conhecido como Grupo dos 21 (G-21), todos fortemente interessados na redução dos subsídios por parte dos mais ricos, coordenado pelo Brasil, foi reforçado por países como China, Índia, México, Indonésia, Nigéria, África do Sul e Argentina, dentre outros. Em seu conjunto, eles representam mais da metade da população do Planeta. Se levarmos em conta que, em eventos anteriores, aos mais pobres era reservado apenas o direito de torcer por Estados Unidos, União Européia ou Japão, de acordo com o grau de dependência do comércio exterior e proximidade desses grandes centros, poderemos concluir, sem exageros, que a diplomacia brasileira, em feito histórico, reduziu drasticamente - e de uma só vez - o espaço físico sob influência direta dos países mais ricos e industrializados.

Não é pouco, pois o que esteve em jogo, em Cancún, não foi o desempenho do G-21, ou de qualquer outro bloco de pobres ou emergentes, mas a sobrevivência da própria OMC. De tal sorte que, em futuro próximo, ou se chega a um acordo mínimo sobre subsídios agrícolas, ou essa instituição multilateral perderá o que lhe resta de credibilidade.

Quais serão os próximos lances dessa ousada estratégia da diplomacia brasileira? Essa é a questão crucial a ser encarada daqui para frente. É difícil antecipá-los, mas um bom começo seria a adoção de uma zona de livre comércio no subcontinente sul-americano. Uma espécie de “vestibular” para a Alca.

Um passo decisivo rumo à zona de livre comércio da América do Sul foi dado em Lima, em fins de agosto, quando os presidentes brasileiro e peruano, diante de uma platéia de cerca de mil empresários de ambos os países, participantes do IV Forum Empresarial Brasil-Peru, anunciaram a adesão do Peru ao Mercosul. Era a ponte que faltava para ligar o Cone Sul à Comunidade Andina. Para acelerar o intercâmbio e a circulação de mercadorias entre Mercosul e Comunidade Andina, nada me parece mais oportuno do que a substituição do dólar como moeda de pagamento do comércio regional. A moeda americana poderia ser substituída por uma espécie de conta corrente, movimentada a cada saída ou entrada de mercadorias ou de serviços, e operada pelos bancos centrais nacionais.

Com isso, economizar-se-iam dólares e euros, que, além do ouro, dariam lastro a uma futura moeda comum sul-americana. Se tiver sucesso, tal iniciativa, com certeza, será rapidamente adotada também por blocos regionais de comércio de outras regiões e continentes igualmente pobres e carentes de divisas fortes.

A conseqüência lógica de tal processo seria a melhor distribuição da riqueza entre as regiões mais pobres e as mais ricas. Uma alternativa ao dólar e ao euro. Em outras palavras, uma moeda dos pobres e emergentes.

O autor, Miguel Ignatios, é presidente da Federação Nacional das Associações Brasileiras dos Dirigentes de Vendas e Marketing do Brasil.

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