Todos os anos a Austrália comemora o “Sorry Day”, dia de pedir perdão aos aborígenes pelos absurdos cometidos contra eles ao longo da História e até muito recentemente. Para se ter uma idéia, ao redor de 1920 era comum que australianos cheios das melhores intenções raptassem crianças aborígenes e as entregassem para adoção em famílias brancas ou as confinassem em instituições, crentes de as estarem livrando de um destino cruel. Isso deu origem à chamada “Geração Roubada”, milhares de crianças aborígenes que nunca mais tiveram acesso às suas famílias, à cultura e às tradições de seu povo. Somente em 1992 veio a ser abolido o termo terra nullius (terra de ninguém), que designara o território aborígene ao longo dos séculos. Finalmente eram reconhecidos os direitos pré-existentes dos aborígenes e surgia o respeito por aquele povo sofrido. Foi então que instituíram o “Sorry Day”, para que uma vez por ano o povo australiano se arrependesse dos graves erros cometidos no passado. Coisa boa se a gente pudesse ter um “Sorry Day” por aqui . Há tanto pelo que pedir perdão: aos negros, aos índios, aos desempregados, aos maltratados, às crianças abandonadas, aos velhos rejeitados. A grande diferença, porém, é que na Austrália eles fazem isso buscando ajudar na integração do aborígene à cidadania. Aqui a gente ia ter que passar o ano todo em clima de “Sorry Day”, porque tardariam ainda soluções dignas para todos a quem precisaríamos pedir perdão. Então, deixa assim. De repente, cada um resolve fazer seu “Sorry Day” particular, passando a limpo seus conceitos equivocados, seu racismo disfarçado, sua indiferença, sua inoperância. Acho que pode funcionar. Um aqui, outro ali, a coisa acaba mudando. Até o dia em que tudo se transforme em lembrança e, nos novos tempos, a gente possa finalmente apenas pedir perdão pelo passado.
Vânia Figueiredo - RG 9.581.376-2