Pessoas que estão acima do peso têm mais um motivo para emagrecer. Um estudo do Centro de Pesquisas e Prevenção de Ferimentos Harborview, em Seatle, revelou que motoristas e passageiros "cheinhos" morrem ou ferem-se mais gravemente em acidentes de carro do que as pessoas leves.
Os pesquisadores do Harborview analisaram mais de 26 mil pessoas que estiveram envolvidas em ocorrências deste gênero e descobriram que as mais pesadas correram mais riscos. Pessoas pesando entre 100 quilos e 119 quilos tem 2,5 vezes mais probabilidade de morrer em um acidente do que aquelas pesando menos de 60 quilos.
A mesma tendência foi verificada quando os pesquisadores analisaram o índice de massa corporal (medida que leva em consideração a relação peso e altura). Alguém com 1,80 metro pesando 126 quilos tem índice 39 de massa corporal - o mesmo de uma pessoa com 1,50 metro e 88 quilos. Pessoas com índice de massa corporal acima de 30 são consideradas obesas.
O estudo mostrou, ainda, que indivíduos com índice de massa entre 35 e 39 estão duas vezes mais propensos a morrer em acidentes comparado a pessoas com 20 de índice. Mas será que tais tendências obtidas na pesquisa americana são dignas de crédito? Segundo especialistas entrevistados pelo AutoMercado&Cia, tais fatos podem realmente ocorrer.
O ortopedista bauruense Alberto Sala Franco é taxativo. “É uma questão puramente física, pois as pessoas mais pesadas possuem massa inercial maior e, conseqüentemente, mais chances de machucarem-se em um acidente”, teoriza.
Outro profissional bauruense da mesma especialidade, Osvaldo Rodrigues Azenha Júnior, também recorre à Física para explicar por que concorda com as conclusões obtidas no estudo. “Qualquer corpo em movimento, em uma freada brusca, tende a continuar em movimento graças à força de inércia, cuja intensidade é diretamente proporcional ao peso”, teoriza.
Isso explicaria, segundo Azenha Júnior, o fato de indivíduos mais pesados sofrerem impactos maiores - e a possibilidade de se ferirem com maior gravidade - em um acidente. “Uma pessoa com 100 quilos será jogada para frente com uma força muito maior que uma de 60 quilos”, teoriza.
O ortopedista diz que passageiros e motoristas obesos correm mais risco porque os cintos de segurança não as seguram como deveriam. “A grande quantidade de tecido gorduroso entre o sistema de contenção e os ossos da caixa torácica diminui a eficiência do equipamento. Desta forma, a probabilidade da ocorrência de lesões musculares e em órgãos internos aumenta”, enfatiza.
O especialista esclarece que os locais onde o cinto transfere a força após um impacto, principalmente as regiões do tórax e da barriga, são os mais propícios a sofrerem danos. “A camada adiposa, ao contrário do que muitos imaginam, não tem muita capacidade de absorção. O ideal é ter maior massa muscular, naturalmente mais resistente à gordura”, salienta o médico.
Apesar disso, Azenha Júnior ressalta que tal fato não serve de base para não se utilizar o cinto de segurança. “Nada, aliás, explicaria este comportamento. O pior é que sempre temos justificativas para morrer com explicação”, frisa. “Há várias estatísticas que comprovam que o uso do equipamento ajudou a reduzir o número de mortes no trânsito”, argumenta o especialista.
Cinto traseiro
O médico acrescenta que o acessório deve ser usado também pelos ocupantes do banco traseiro, atitude que já virou tema de campanha da Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia (SBOT).
O especialista considera que, atualmente, a adoção do cinto de segurança dianteiro pelos motoristas e passageiros é maciça, situação bem diferente de quem anda atrás. “Infelizmente, apenas uma minoria tem costume de utilizá-lo nos bancos traseiros”, observa. Segundo Azenha Júnior, as conseqüências de tal despreocupação com a segurança podem ser gravíssimas.
O médico cita um exemplo alarmante. “Em um acidente, uma pessoa com 60 quilos trafegando sem o cinto no banco traseiro a 60 km/h será arremessada para frente com uma força equivalente a 600 quilos. Assim, ela não só morre como também mata os passageiros da frente, que serão atropelados pelo corpo de quem está atrás”, adverte.
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Prevenção
Charles Mock, cirurgião e epidemiologista que conduziu a pesquisa americana, sugeriu que uma maneira de garantir a segurança dos carros é usar bonecos mais pesados nos testes de acidentes, de modo a certificar o carro como seguro para dirigir.
Os atuais testes usam bonecos que representam o tamanho-padrão de homens pesando cerca de 78 quilos. Recentemente, bonecos menores, representando crianças, passaram a ser usados nos testes. Foi o que provocou as alterações nas configuração dos airbags nos Estados Unidos.
Isso significa que os projetistas de carros terão de criar novos recursos de segurança para compensar os riscos extras por que passam os obesos motorizados. Nos EUA, fabricantes de veículos já remodelaram os airbags de modo que eles inflassem sob baixa pressão, tornando-os seguros para mulheres e crianças. Resta saber como solucionar o problema para passageiros obesos.
Entretanto, o ortopedista Osvaldo Rodrigues Azenha Júnior concorda em parte com tais argumentos. Para o especialista, como os carros são projetados para indivíduos “médios” padrão - entre 80 quilos e 90 quilos e com até 1,75 metro de altura -, obviamente os obesos estariam montados em veículos fora de especificação. “É uma configuração não voltada para ele”, salienta.
Apesar disso, Azenha Júnior sustenta não ser viável às montadoras desenvolverem carros especialmente para obesos. “Diferentemente dos locais públicos, como teatros e cinemas, onde as adaptações podem ser facilmente executadas, os automóveis encontram-se em linhas de produção que exigiriam milhões para serem alteradas”, pondera.
O ortopedista recomenda, se a pessoa for obesa, dirigir-se a uma agência autorizada para verificar a viabilidade de adaptação do veículo visando maior conforto e segurança. Mas, destaca o médico, a melhor solução seria uma só. “Emagrecer”, destaca. “É o melhor a fazer pela saúde pessoal”, conclui Azenha Júnior.