Política

Com seis pré-candidatos e a um ano da eleição, Bauru quer resgatar auto-estima

Da Editoria
| Tempo de leitura: 6 min

Diz um ditado que depois da tormenta vem a calmaria. É possível que Dudu Ranieri (PFL) acalme, por ora, a ventania renitente que espalha as flores das Cerejeiras há cinco anos. Porém, o porto seguro para a cidade - universal, cidadão e democrático - é a escolha do prefeito pelo voto do eleitor, daqui a um ano. O bauruense terá, em 2004, a oportunidade de mudar o curso dessa história para bem longe das tormentas políticas. No horizonte eleitoral se avistam pelo menos seis pré-candidaturas com densidade eleitoral e uma imposição comum a todas: soluções para a retomada do crescimento e da auto-estima da cidade.

Pela ordem alfabética, os nomes que começam a ocupar o palco principal, os holofotes e os flashes da mídia e esforços partidários até a definição oficial, em abril/maio do ano que vem, são: Caio Coube (PSDB), Carlos Braga (PP), Dudu Ranieri (PFL), José Carlos Batata ou Estela Almagro (PT), Rosa Izzo (sem partido), com possibilidade de Izzo Filho ser o nome; e Tuga Angerami (PDT). Em razão de fatos recentes, a entrada do prefeito Dudu e de Rosa no páreo são os fatos novos.

O primeiro, por ter assumido o cargo de prefeito e toda a possibilidade que ele oferece de sucesso (ou de fracasso) e a segunda, por seu marido, Antonio Izzo Filho, encontrar-se impedido legalmente de concorrer, resultado de uma condenação judicial, e por ter a sensação de que ainda dispõe de um forte apelo popular, principalmente nas camadas mais pobres da população.

Por se tratar de uma eleição em dois turnos (a primeira da história bauruense), surgirão outros nomes, alguns até com quilometragem suficiente para entrar no grupamento de elite. Outros terão potencial para “correr por fora”, dependendo da ansiedade do eleitor por novidades, e um terceiro grupo ficará na periferia das apostas, apenas para cacifar seus partidos ou mesmo seus próprios nomes, de olho em bons acordos no segundo turno.

Serão os chamados “nanicos”, personagens que pouco contribuem ao debate das idéias, mas que em certo momento são assediados como contrapeso de tempo no horário eleitoral ou para fazer ataques gratuitos a adversários pré-determinados. São figuras inevitáveis, não por existirem, porque a democracia pede a maior representatividade que se possa oferecer ao eleitor, mas por cumprirem papéis que em nada enobrecem o papel do político.

Os dois professores ouvidos pelo JC nesta reportagem - Maximiliano Martin Vicente e Celso Zonta - têm em comum a impressão de que haverá mudanças significativas no que se refere a nomes novos para o Poder Legislativo. Um deles acredita em surpresa até mesmo para o Executivo, mas o elenco de interessados ainda não revela nenhum político que não tenha tido alguma atuação na cidade. Nem mesmo Rosa Izzo poderia ser destacada, uma vez que sua candidatura é somente uma solução ao impedimento de seu marido.

Opção empresarial

Mas há nomes que não fazem parte dos séquitos partidários e que circulam de boca em boca, principalmente nos setores formadores de opinião da cidade. São os empresários com boa visibilidade por suas atividades profissionais e pelo envolvimento com as coisas e causas sociais da cidade.

Entre eles estão nomes que atiçam a vontade de muita gente em vê-los dirigindo a cidade com o mesmo sucesso com que o fazem em seus ramos de atividade, tais como Toninho Gimenez, Jair Lot Vieira, Milton Simão, Marco Antonio Pereira da Silva, Antonio Eufrásio de Toledo Filho (Toledinho), Duda Trevizani, entre outros.

O sentimento de que um homem com este perfil pode ser a solução para a cidade sair do círculo vicioso em que se encontra remonta a Era Franciscato, empresário bem-sucedido, que governou Bauru e a representou no Congresso Nacional por muitos anos, período em que a cidade vivenciou um dos melhores períodos de desenvolvimento de toda sua história.

Às vésperas de períodos eleitorais, Bauru sempre fala em nomes de sucesso do meio empresarial, como já se falou em outros momentos de Moussa Tobias, Érico Braga, Ricardo Coube, Jad Zogheib, entre outros, que por um ou outro motivo não puderam aceitar a incumbência.

De qualquer forma, no estágio em que se encontra a vida político-partidária em Bauru, não é nada fácil nomes novos se habilitarem a concorrer. Em primeiro lugar porque os partidos são feudos de poucos e geralmente têm um cacique que controla, com mão de ferro, toda a vida orgânica dos mesmos, condicionando-os a projetos políticos pessoais.

Em segundo lugar, porque a cultura canibalista que tomou conta dos embates eleitorais e políticos mais recentes assusta cidadãos de bem, que optam por represar sua vocações públicas para preservar sua privacidade intacta.

É justamente neste aspecto que Zonta e Vicente vêem crescer a rejeição aos políticos com mandato que aí estão, alguns há mais de dez anos, salvo honrosas exceções, mas com a constatação de que se chegou a um limite de saturação, por conta do que classificam de atitudes voltadas a “interesses terríveis”.

Então, a pergunta que se faz, mais uma vez, é: quem se habilita? O eleitor pode estar disposto a renovar, mas o problema são só os nomes e a falta de líderes autênticos e com visão pública ou a viciada e precária estrutura partidária? Ou ambos?

Pulo do gato

A partir de exemplos de outras localidades em crise política é possível visualizar que mesmo quando um processo eleitoral não possuiu as características imaginadas pelo eleitor - no caso de Bauru o provável desejo de alternância de nomes -, nem por isso o futuro da administração municipal estará comprometido.

Mais importante do que nomes é o comprometimento dos candidatos com propostas e compromissos emanados da população. Para isso, é preciso uma campanha rica em debates e em formas de fazer com que os candidatos sejam representantes não apenas do que pensam, mas acima de tudo dos interesses coletivos e prioridades da cidade.

Se o período de campanha for dominado pelos argumentos falaciosos de um projeto irreal de governo, pela velha e surrada distribuição de bens de pequeno ou médio valor, o prefeito que assumir estará à vontade para imprimir apenas a marca de sua personalidade nas decisões de governo. E não haverá tempo para que se faça muita coisa após o dia 3 de outubro de 2004, a não ser enveredar, de novo, pelos caminhos traumáticos de CEIs, CPs e cassações.

O pulo do gato, portanto, deve ser uma campanha intensa, não apenas por parte da classe política, mas principalmente pelos setores que podem contribuir para expôr os reais interesses e a capacidade de cada candidato à exaustão, através de um grande filtro de idéias. Quanto mais “homens nus” forem os pretendentes, melhor para o leitor/eleitor, que não terá dúvidas sobre quem credenciar para gerir seus destinos por quatro anos.

Comentários

Comentários