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'Deus' mercado no clima pagão


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Tornam-se cada vez mais claros os sinais da decadência do formidável poder da nação pluriestatal, à medida em que os povos vão tomando consciência de que ele existe e do que ele, realmente, representa.

Constituem a referida nação todos os adoradores do “deus” Mercado, em razão do qual foram abandonados os alicerces da nossa cultura, da civilização, a nosso ver, ora em agonia, representados factualmente, como o temos repetido tantas vezes, pelas Sagradas Escrituras.

Por causa do referido culto ao lucro pelo lucro, estamos vivendo em clima pagão, dentro do qual têm prosperado todos os vícios e se generalizado e tornada incontrolável a corrupção, sob todas as suas variadas formas. É que os adoradores do “deus” a que nos estamos referindo, vitimados eles próprios, pela cegueira a que quiseram submeter as massas exploradas, perderam a noção da prudência e pagam agora, ou começam a pagar, pela imprudência praticada. A invulnerabilidade da posição que até há pouco mantiveram, dependia do anonimato que agora começa a ruir, à medida em que lhe vai caindo a máscara.

Exemplo claro e escandaloso continua a ser dado, diariamente, pelo conflito no Iraque que, surpreendentemente, a cada dia mais se assemelha à desastrada guerra do Vietnã, na qual lucraram apenas os vendedores de armas, figuras importantes do sacerdócio do “deus” Mercado.

A consciência da humanidade evoluiu, e já não aceita o disparate monstruoso da guerra como meio defensável de resolver divergências ou diferenças de interesse. Muito falta, ainda, a percorrer. Por exemplo, a tomada de consciência acerca da diferença entre o verdadeiro ideal democrático, e a contrafação prostituída do mesmo, que nos tem sido impingida como democracia. Essa contrafação foi deliberadamente concebida e implantada com desprezo ao Direito Natural, e baseada em equívocos fatais como, entre outros, a confusão entre a liberdade, como conceito, no plano metafísico, conceito cujo atributo caracterizador é o de não sofrer restrições, e liberdade como exercício por parte de seres, como somos todos, imperfeitos e dotados de boas e de más tendências. Em tal realidade, é indispensável impor limites claros entre umas e outras, o que exige a observância de um referencial axiológico fixo, independente da opinião eventual de maiorias volúveis, formadas e manipuláveis, quanto à sua composição e quanto ao significado das decisões que tomam. Manipuláveis pelos detentores dos meios adequados à manipulação das emoções populares, fundamentais nos pleitos democráticos.

Daí a importância vital para os adoradores do Mercado, da forma degradada de democracia a que nos estamos referindo: é necessária a confusão entre a liberdade como conceito e a liberdade como exercício. Afinal, o que querem aqueles adoradores é escravizar aos vícios os seres humanos que, assim, opiados por eles, tornam-se incapazes de se defenderem. E é desse pesadelo que a humanidade está, enfim, começando a despertar.

Antes de terminar, queremos despertar a atenção dos leitores para o fato de que, quando do desmantelamento da União Soviética e estabelecimento ali da “democracia”, dez ou quinze dias depois, os quiosques de jornais e revistas das grandes cidades russas estavam cobertos de literatura “pornô”, e em cada esquina brotaram traficantes de drogas. O mesmo, o mesmíssimo, está ocorrendo agora no Iraque: em Bagdá surgiram, da noite para o dia, cinemas exibindo filmes pornográficos, que estão sendo transmitidos pela TV estatal, ao mesmo tempo em que legalizou-se a prostituição, e começam a pulular os traficantes de drogas. Tudo, é claro, em nome da democracia e da liberdade...

Jorge Boaventura

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