Polícia

Dezesseis adolescentes fogem da Febem

Diego Molina
| Tempo de leitura: 6 min

Dezesseis adolescentes conseguiram fugir da unidade de Bauru da Fundação para o Bem Estar do Menor (Febem) no domingo à noite. Os poucos funcionários presentes na instituição no momento do tumulto foram rendidos com armas improvisadas. Até o fechamento desta edição, um interno havia sido recapturado pela Polícia Militar (PM) e dois se entregaram.

Na unidade, havia quatro agentes em serviço no domingo à noite e mais quatro guardas da empresa de vigilância particular, responsável pela segurança do portão, informa a assessoria de imprensa da Febem.

O capitão Benedito Roberto Meira, comandante da 1ª Companhia da PM, relata que o problema começou por volta das 22h15, no pavilhão da Unidade de Internação Provisória (UIP). Neste prédio havia 24 adolescentes que aguardam decisão da Justiça para internação definitiva. “Eram dois funcionários trabalhando (na UIP) e eles foram dominados pelos menores com pedaços de cabo de vassoura quebrados”, diz Meira. Ao todo, a Febem tem capacidade para 72 internos, porém contava com 75 adolescentes no total, antes da fuga.

O boletim de ocorrência (BO) registrado pela PM informa que os adolescentes se apoderaram de uma vassoura no pátio interno da instituição, para quebrá-la e transformá-la em uma arma pontiaguda. A assessoria de imprensa afirma, através do depoimento dos agentes, que um dos garotos havia pedido para ir ao banheiro, momento que o funcionário foi rendido e amarrado com a ajuda de outros internos da mesma cela.

“Eles determinaram que o funcionário abrisse os alojamentos onde estavam os outros adolescentes. As portas ficaram abertas mas não saíram todos, alguns não quiseram fugir”, afirma o comandante da PM. Cada cela da unidade comporta, em média, seis internos.

Os adolescentes dominaram o outro agente da UIP, levando os dois até a portaria, ameaçados com as armas improvisadas em seus pescoços. Todos os internos usavam suas camisetas amarradas na cabeça, para encobrir o rosto, segundo o BO.

Na portaria, foram rendidos também os guardas de vigilância. Meira conta que eles furtaram um telefone celular e um rádio de comunicação, cortaram os fios de telefone para dificultar a comunicação com a polícia e ordenaram que os portões fossem abertos. A PM foi comunicada somente por volta de 22h40.

Na opinião do capitão Meira, estes adolescentes são de alta periculosidade e apresentam risco à população. “Um menor só vai para a Febem quando pratica ato infracional mediante violência ou grande ameaça a pessoa, como roubo, homicídio ou tentativa, os crimes mais graves que nós temos. Eles são um risco à comunidade e a Febem seria a única forma de reeducá-los”, explica.

Na opinião do vice-presidente da Associação de Moradores do Núcleo Geisel, Waldir de Souza, a instalação da Febem próxima ao bairro deixou todos os moradores apreensivos, e as últimas rebeliões na unidade só aumentaram o medo. “Quando as pessoas precisam sair de casa para fazer alguma coisa na cidade, não tem como sair, deixar a casa sozinha. Fica todo mundo com medo de uma rebelião, uma fuga e algum menino se esconder aqui”, diz.

A auxiliar de limpeza Maria Pereira dos Santos, que mora há poucas quadras da Febem, também fica com receio quando ouve que ocorreram problemas na unidade. “A gente ouve todo mundo falar que tem medo. Das outras vezes que teve problema lá, todo mundo comentou. Eles fogem e vai saber se eles não vão se esconder aqui no bairro”, comenta.

Dos 16 adolescentes que fugiram, um foi recapturado pela PM ainda na madrugada de ontem e outro se entregou pela manhã, voltando espontaneamente para a unidade, segundo a assessoria de imprensa. A PM confirmou que, durante a tarde, outro menor se apresentou voluntariamente à instituição.

As buscas da PM se concentraram inicialmente na região do Jardim Botânico, do Zoológico Municipal e da Universidade Estadual Paulista (Unesp). Ontem, os policiais começariam a procurar os adolescentes infratores na região de suas residências, visto que todos são moradores de Bauru e a PM possui a relação de endereço de todos.

A assessoria de imprensa da Febem informa que uma comissão de técnicos da instituição foi enviada ontem a Bauru para avaliar a situação.

____________________

Histórico

A unidade de Bauru da Febem foi inaugurada em fevereiro de 2002 e começou a receber os adolescentes no mês de junho. Sua proposta inicial era de ser uma unidade-modelo, com atividades multidisplicinares, equipe educativa e ausência de violência. A situação que vem se colocando no local, entretanto, é de presença de drogas, internos revoltados e agressivos e, freqüentemente, afastamento e demissões de funcionários por denúncias de maus-tratos. Confira abaixo um histórico dos principais acontecimentos deste ano instituição.

10 de janeiro - dois adolescentes brigam com outros internos e causam tumulto.

1 de fevereiro - adolescente tranferido da unidade de Lins é espancado por 11 internos, devido a uma antiga desavença.

3 de fevereiro - Rebelião, motivada por briga entre os internos, faz cinco funcionários reféns, e cinco adolescentes fogem.

13 de março - A diretora da unidade de Bauru, Edinéa Sita Cucci é afastada do cargo, devido às fugas, rebeliões e uma sindicância interna.

18 de março - A psicóloga e investigadora Maria Aparecida Cavalheiro Bien é confirmada como nova diretora da Febem de Bauru.

11 de abril - A Comissão de Direitos Humanos da Câmara Municipal de Bauru visita a unidade para verificar a situação dos internos.

6 de maio - Um funcionário acusado de agredir um interno é afastado. Adolescente contou que cinco agentes haviam participado da agressão.

15 de maio - Um adolescente foge e um funcionário é agredido por vários internos durante uma rebelião. Os 24 rebelados pedem visita íntima, mais cigarros e direito de vestir roupas comuns. Ao todo, no mês de maio, 10 funcionários são demitidos.

13 de junho - Princípio de rebelião na unidade de Bauru faz três reféns e fere quatro funcionários. Confusão foi provocada por um interno que se rebelou contra transferência.

30 de julho - Unidade ganha posto da corregedoria, responsável pela instauração de sindicâncias internas e investigação de irregularidades, como maus-tratos aos internos.

28 de agosto - Um adolescente fuge enquanto se apresentava na Junta do Serviço Militar, mas é capturado momentos depois.

9 de setembro - Unidade de Bauru passa por sua pior rebelião, que durou cerca de cinco horas. Salas de aula, oficinas, a padaria e o salão de jogos ficam completamente destruídos. Um menor e dois policiais saem feridos.

10 de setembro - Dois funcionários são afastados, devido a denúncias de maus-tratos, que teriam motivado a rebelião do dia anterior.

14 de setembro - Seis internos se revoltam contra escolta da PM para retornar do Pronto-Socorro do Mary Dota.

24 de setembro - Interno foge do Hospital Estadual depois de sofrer pequena cirurgia.

____________________

Leia mais sobre este assunto

• 'Número de agentes é aquém do necessário'

Comentários

Comentários