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Dando o que não pode!


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Uma síntese de indicadores sociais recentemente divulgada pelo prestigiado IBGE, em cujos quadros funcionais já estivemos honrosamente inseridos, revela que cerca de 30 milhões de brasileiros ganham apenas R$ 124,04 por mês, enquanto os 10% mais ricos, aproximadamente 7,6 milhões, auferem 19 salários mínimos mensais, equivalente a R$ 2.477,61. A estatística é detalhativa, explicando que o cidadão mais rico do País ganha hoje o mesmo que 50 brasileiros pobres e que a parcela de 1% dos mais abastados detém 13,8% da renda total, enquanto para os 50% nada afortunados sobram apenas 13,5%. Encontram-se, então, em tais dados, os motivos pelos quais a fome existe em milhões de estômagos do País, a ponto de induzir o governo a promover a campanha que está levando a efeito contra a pobreza, abrindo a carteira de quem a tenha com sobras.

A distribuição de renda, segundo os dados divulgados, muda substancialmente de acordo com a cor da pele. Nas famílias com chefes brancos 12,1% vivem com meio salário mínimo per capita e, nas chefiadas por negros, o número sobe de 24,5% para 30,4%. A maior desigualdade na distribuição da renda nacional situa-se no amplíssimo Nordeste, com os 50% mais carentes detendo 15,4% dos rendimentos e o 1% mais opulento 16,4%. Os números são contundentes e contraditórios especialmente diante da notícia, amplamente divulgada, segundo a qual nosso governo irá doar mais de US$ 55 mil à Organização das Nações Unidas (ONU) para ajudar no combate da fome reinante nos países mais carentes do grande universo, gesto de extraordinária bondade de quem quase não tem nem para socorrer a pobreza local.

Por isso, instigando aos que o tenham a fazê-lo generosamente, e, no entanto, se dispõe a acudir além-fronteira, indiferente a algum lapso de contabilidade que possa estar ocorrendo nos cálculos da vida brasileira e, conseqüentemente, já esteve se materializando a esperada fome zero, a qual, então, aconteceria a velocidade automobilística, podendo desaparecer quando menos se espere, para o bem de todos e felicidade geral da nação. É a nossa opinião.

O autor, N. Serra, é o jornalista responsável pelo JC e delegado regional da Associação Paulista de Imprensa e da Ordem dos Velhos Jornalistas do Estado.

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