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De Campos Sales a Lula


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O Brasil conheceu, no final de setembro, através da publicação “Estatísticas do Século XX”, do IBGE, o seu retrato de corpo inteiro dos últimos 100 anos. Em breve, o calhamaço estará à disposição do público e será imprescindível para aqueles que gostam ou necessitam fazer projeções e analisar tendências.

No último dia 2, no JC, o jornalista Nadyr Serra, com a sabedoria de sempre, abordou aspectos do documento em questão. Com a devida vênia, acho que cabem mais algumas considerações. Uma leitura e um pensar sobre os números oferecidos, num primeiro momento provocam certo entusiasmo, porém, é preciso cuidado para não prejudicarmos a análise correta da radiografia deste país tropical. O Brasil do século passado mostrou potencial de desenvolvimento fantástico, e isso entusiasma, por outro lado, revela uma nação crescendo à sombra da injustiça social, e isso é preocupante.

Devemos comemorar o crescimento da participação das mulheres na vida política e econômica do Brasil (hoje constituem metade do eleitorado e 40% da força de trabalho), mas devemos lamentar a discriminação salarial a que são submetidas (as mulheres recebem, pelo mesmo trabalho feito por um homem, 70% do que eles ganham). Louvamos o aumento da expectativa de vida (de 33 anos para quase 70 anos), a queda da mortalidade infantil, de 162 por mil nascidos vivos, para 26 por mil nascidos vivos, e a redução da taxa de analfabetismo (despencou de 65%, em 1900, para 13%, em 2000).

Acrescentemos, como fatores positivos, o desenvolvimento industrial e o agrícola. Fatos auspiciosos que carregam lamentos procedentes. No caso da industrialização, o inchaço das cidades com o conseqüente aumento da violência. Na área agrícola, a explosão tecnológica que viabilizou a agricultura moderna, indiretamente, ajudou a enfraquecer os pequenos produtores, empurrando-os para a periferia das grandes cidades.

O Produto Interno Bruto (PIB), que mede o desenvolvimento econômico dos países, estima-se tenha crescido, no Brasil, de 1900 até 2000, 12 vezes. Saiu de R$ 9 bilhões (valor estimado) para R$ 1 trilhão. Se esse crescimento nos alegra, a distribuição da renda que ele proporciona nos entristece. O Brasil está entre os campeões mundiais da má distribuição de renda: 1% (isso mesmo, um por cento) dos mais ricos ganha o mesmo que os 50% dos mais pobres, todos juntos. Quero usar, com a devida licença, o bordão do jornalista Boris Casoy, alto e bom som, para que não nos esqueçamos que grande parte dos problemas não resolvidos deste País reside na concentração de renda: é uma vergonha!

Muitos pontos do documento do IBGE são hipotéticos. O Brasil só começou a coletar dados, com preocupação científica, nos últimos 60 anos, mas nem por isso, o estudo divulgado deixa de ter credibilidade. Ele lança, de forma competente e séria, luzes sobre os últimos 100 anos da vida do País e proporciona condições para que sejam feitas as necessárias correções de rumos na construção da grande nação que desejamos.

Pode-se dizer que, de Campos Sales à Lula da Silva, o Brasil se transformou, e muito. O povo vive mais, porém, não tão bem quanto deveria. Avançamos, se não tanto quanto poderíamos ou queríamos, avançamos. Não somos tão miseráveis quanto os pessimistas empedernidos apregoam e nem os maiores do mundo como os ufanistas alardeiam. Há esperança. Ela é a última que morre. Vamos em frente...

O autor, Tidei de Lima, é engenheiro-civil, ex-deputado federal, ex-secretário da Agricultura e ex-prefeito de Bauru.

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