Alguma coisa está errada em Bauru. Leio no JC que a cidade caiu 199 posições no ranking do Índice de Desenvolvimento Humano do Estado de São Paulo. Saímos do 380º para o 579º e o Estado tem 645 municípios. Com tanta carne, peixe, macarrão, feijão, milho, bolacha na merenda escolar, segundo exaustivamente demonstrado nos últimos 90 dias, é impossível que esses números sejam verdadeiros. A concentração de renda pode ser grande no município, mas a redistribuição do dinheiro em forma de comida, assistência médica e medicamentos aos quais a população tem acesso deve ser uma realidade. Ou então andaram abusando da ingenuidade do povo ao qual me incluo.
O prefeito momentaneamente afastado – dizem os jurisconsultos da Comarca que a liminar é só uma questão de dias ou semanas – na sua defesa contra a cassação do seu mandato dizia que a prefeitura serve 60 mil refeições diárias. Isso corresponde à produção de 54 lojas McDonalds do tamanho daquela que conhecemos na avenida Nações Unidas. Para administrar esse número de lojas, a empresa busca capitais de terceiros e tem todo um kow-how acumulado em décadas de gestão e digestão. Isso inclui uma universidade na Califórnia exclusiva para estudar modelos de gerenciamento e pesquisa até a quantidade de sal que vai em cada pacote de batatas fritas.
Na McDonalds existe a figura do “depositário fielâ€. Também copiaram do Clóvis Bevilacqua, que introduziu essa figura jurídica no Código Civil de 1916. Só que é um pouco diferente quanto aos procedimentos. A Universidade do Hambúrguer também pesquisou o método de gerenciamento de produção desenvolvido por um japonês chamado Toyota – aquele da fábrica de automóveis – e denominado Kamban. O japonês percebeu que gastava muito dinheiro com estoques e resolveu trabalhar mediante contrato com fornecedores que tinham que fabricar os produtos de acordo com as suas especificações e entregá-los na fábrica todos os dias, de acordo com a necessidade. Se fizessem tudo direitinho, de acordo com o contrato, os fornecedores recebiam conforme o previamente estipulado. Em caso contrário eram multados.
Fico pensando na possibilidade do prefeito em exercício, mesmo que esteja apenas guardando o lugar para o afastado, adotar o kamban. Vou mais longe: em vez da merenda escolar comprar toneladas de patinho de um só fornecedor e mais caro que o preço praticado nos açougues e supermercados, melhor seria estabelecer parcerias com as creches e escolas, onde em cada unidade pais e mestres pudessem gerenciar o dinheiro e cada um comprar onde estivesse mais barato. Muitas variáveis influem nos preços dos alimentos. Tudo é sazonal e de acordo com a lei da oferta e da procura. Quem quer vender tem que baixar o preço. Se a verdura está cara, que tal a cenoura?
Um amigo meu, sábio e perspicaz, disse que essa mcdonaldização financeira da merenda jamais vingaria por estas bandas. Os prefeitos gostam de trabalhar com grandes somas e fornecedores únicos. Segundo ele, seria “uma forma de exercitar o poderâ€. Esse meu amigo é uma pessoa discreta, às vezes até meio metafórico. Abusa das entrelinhas.
Para falar em modernidades e ao mesmo tempo voltar ao problema das desigualdades sociais, que pioram em Bauru, leio sobre o surto endêmico de leishmaniose detectado aqui pelas autoridades sanitárias. No momento em que o mundo de vê cercado por novas doenças de origem física, psíquica e genética como aids, estresse e gripe asiática ressurge na terrinha a velha leishmaniose, da qual já somos pioneiros desde 1908. Os trabalhadores que abriam espaço para os trilhos da Estrada de Ferro Noroeste, na região de Araçatuba, eram atacados por um mosquito chamado “birigüiâ€, que transmitia um parasita. Na forma cutânea provocava lesões na pele e nas mucosas, que chegavam a provocar extensas mutilações. Era a chamada “úlcera de Bauruâ€, denominação que aparece na literatura médica mundial. Mais conhecida em termos internacionais que o sanduíche.
Aqui, a doença está de volta. Pelo menos na forma que ataca as vísceras de homens, canídeos e roedores. A chamada leishmaniose visceral.
Como diz o meu metafórico amigo, “Bauru não é melhor nem pior que as outras cidades - é apenas diferenteâ€. (O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC)