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Otimista, mas precavido


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Os jornais trazem notícias otimistas sobre o movimento na Bolsa de Valores que está “batendo recordes”. Fala-se ainda nos investidores estrangeiros que voltam a especular na ciranda financeira e do dólar em baixa por causa do excesso de oferta da moeda norte-americana. Assim mesmo continuamos a exportar.

Na verdade, apenas voltamos a mesma situação de quatro anos atrás, em dados comparativos. No máximo começamos a igualar 1998 quando o governo FHC começou a degringolar. Ele teve quatro anos de estabilidade porque convenceu o mundo de que o real podia valer o mesmo que o dólar. Quando descobriu-se que se tratava de uma situação artificial, a máscara caiu e o Brasil empobreceu. Temo que essa euforia de hoje seja também uma bolha de sabão. Flana no ar até encontrar a primeira aresta.

Para os analistas sensatos, os indicadores econômicos ainda são ruins. Há mais de 2 milhões de desempregados só em São Paulo. No final de setembro, o índice inflacionário acumulado lambeu a meta preconizada pelas autoridades financeiras para 2003, justamente por causa dos chamados preços administrados pelo próprio governo: energia, telefonia, transporte coletivo, impostos. Se o brasileiro tivesse poder de compra, a inflação teria explodido.

É verdade que o risco-país perdeu sustentação e fechou a semana abaixo dos 600 pontos. Mas também é real que ainda perdemos feio para o México e Chile, países nos quais o risco não chega nem à metade do nosso.

O ministro José Dirceu mostra-se cauteloso. Acha que ainda temos mais uns nove meses de vacas magras. Lula, depois de nove meses de governo, acha-se no direito de comemorar o nascimento de um filho loiro, gordinho e de olhos azuis. O Palácio do Planalto já enxerga um pasto de vacas gordas.

Pode ser, mas são necessários cuidados. A austeridade nos gastos não serve só para momentos de crise. Temos ainda um longo caminho a percorrer. Os projetos de reforma da Previdência e do sistema tributário ainda tramitam no Congresso. Se o Senado der sinais de querer minimizar as mudanças na Constituição, a onda de otimismo tende a passar tão rapidamente conquanto chegou. O capital volátil se esgarça no ar mediante um sopro. Há muita gente pelo mundo esperando o melhor momento de faturar com as fragilidades da economia brasileira. De repente, quem comprou dólar na baixa vai querer provocar a sua valorização. As ações do Ibovespa tiveram grande valorização e os jogadores viciados estão sempre dispostos a realizar lucros. Como disse o próprio Lula em mais uma de suas metáforas pendulares, a economia brasileira parece uma bicicleta ergométrica “que anda, anda e não sai do lugar”. O mais importante, porém, foi a promessa que fez de boas novas: “Logo, logo, o espetáculo do crescimento vai começar”. Tomara...

Pensando bem, o melhor é aderir ao tema da canção de Torquato Neto, aquela que diz: “Só quero saber o que pode dar certo/ não tenho tempo a perder”. Fazer o País retomar o caminho do crescimento a curtíssimo prazo não pode ser apenas figura de retórica: representa a garantia de sobrevivência para milhões de brasileiros. Questão de vida e morte para severinos, zés, joões, marias e franciscos - todos desempregados. Figa.

O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC.

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