O médico bauruense Marcelo Morales, 34 anos, comemora com os norte-americanos Peter Agre, 54 anos, e Roderick MacKinnon, 47 anos, o prêmio Nobel de Química 2003. Ele é colaborador dos pesquisadores no estudo do funcionamento das células.
Doutor em biofísica, Morales é professor e diretor do laboratório de fisiologia celular e molecular e pesquisador do Instituto de Biofísica Carlos Chagas Filho, na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).
Mas morou em Bauru até ingressar na faculdade de medicina. Atualmente, passar o Natal aqui com a família é sagrado. Foi aluno de escola pública estudou no Rodrigues de Abreu e por se destacar nos resultados foi bolsista do Anglo e do Preve, passou na Unicamp e Unesp, mas como queria estudar na USP, tentou mais uma vez e conseguiu.
Em 1993, ainda como aluno de medicina da Universidade de São Paulo, o bauruense foi convidado para ir aos Estados Unidos para pesquisar canais de cloreto (CFTR) que causam uma doença chamada fibrose cística, que afeta o funcionamento dos rins. Apesar de não trabalhar no mesmo laboratório que Peter Agre, acabaram se conhecendo e tendo um contato grande. Foi nessa época que o brasileiro foi encorajado por um dos médicos da equipe de Agre a continuar suas pesquisas com canais iônicos.
Hoje, Morales está envolvido com a atuação destes canais na doença de Chagas.
Mas ele explica que o passo dado por Agre na medicina é muito importante, pois ele descobriu um canal transportador de água dentro da membrana da célula.
“Antes da sua descoberta, supunha-se que a água era transportada por toda membrana, mas Agre descobriu a existência dos canais, que são como pequenos poros responsáveis pelo transporte de água para a célula e de seu funcionamento seletivo, que não deixa passar outra coisa, senão água”, explica o médico.
Agre descobriu isso através de uma proteína que denominou de aquaporina, que no corpo humano é responsável pelo sistema de reabsorção de água no organismo. Por dia, o corpo humano processa mais de 140 litros de plasma sangüíneo.
Morales explica que em alguns casos de mutações genéticas na aquaporina, os pacientes podem urinar demais, não repõem a água e acabam morrendo, principalmente em casos de diabetes. A aquaporina também é responsável pelo transporte das lágrimas, saliva e suor daí, a importância da descoberta para a medicina.
“Aparentemente pode ser uma descoberta muito básica, muito pequena, mas é fundamental. Pois é a chave do entendimento para uma série de doenças. Dessa forma, poderemos trabalhar com a terapia gênica, tratando problemas na base molecular, na raiz. Esse é um dos propósitos da ciência.”
Pesquisas
Apesar de afirmar que o Brasil deu um salto muito grande na ciência e tecnologia, a pesquisa ainda é um ponto com muitas limitações orçamentárias.
“Isso é uma pena, porque o Brasil tem um potencial enorme e a nossa contribuição é importante, reconhecida até no exterior. Mas infelizmente na nossa cultura não tem relevância e no futuro podemos ser colonizados tecnologicamente, porque a cada pesquisa realizada é feita uma patente e se torna dependente desse descobridor. Se não investirmos logo, ficaremos dependentes de tecnologia.”
O médico bauruense, que espera que o presidente Lula cumpra a promessa de dobrar os investimentos em pesquisa no País até o final do mandato, nos dois últimos anos foi o vencedor do prêmio Jovem Cientista do Estado do Rio de Janeiro. Como prêmio, recebeu R$ 15 mil para gastar em seus experimentos.
“É bacana ganhar o prêmio, pena que o valor é irrelevante quando se fala em pesquisa. Gasto hoje por mês uma média de R$ 100 mil no trabalho que estou desenvolvendo este ano.”
Este montante é custeado parte pelos governos estadual e federal, mas Morales aponta que, por conta de acordos de colaboração, anualmente viaja aos Estados Unidos e traz muitas coisas para o Brasil que lhe permitem desenvolver o trabalho, além do conhecimento.
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Diversão
Marcelo Morales conta que quando Peter Agre soube que ele era brasileiro, a primeira coisa que fez foi dizer que tinha um filho louco por futebol e pela Seleção Brasileira e que o sonho era ter uma camisa de goleiro.
Foi então que o médico encomendou uma camisa do Taffarel e postou para os EUA.
“Apesar de muito ocupado e muito assediado, Agre é uma pessoa muito simpática e acessível, me convidou várias vezes para ir à casa dele e até para ver o filho jogando bola com a camisa que eu dei”, conta.
Agora quem retribui as visitas e o trabalho de colaboração de Morales é o médico norte-americano, que participa do 5º Congresso Ibero-Americano de Biofísica, que começa hoje, no Hotel Glória, no Rio de Janeiro.
Mesmo com toda a responsabilidade, Morales se diz apaixonado pelo que faz e orientar pesquisadores no laboratório é como estar “brincando”.
“Para mim a pesquisa é um grande divertimento”, vibra o estudioso.