Quando um emprego é bom? Muitos, possivelmente, vão dizer que é quando paga bons salários. O salário tem sido a fita métrica da avaliação do emprego. Das diversas dimensões do emprego esta assume maior evidência, ofuscando as outras. Não deixa de ter razão porque o salário é o meio de vida da maioria, mas na medida em que o aperto financeiro diminui as outras dimensões vão se sobressaindo. É o que revela a pesquisa anual da revista Exame sobre as melhores empresas para trabalhar, onde 40% dos empregados das empresas pesquisadas escolheram a qualidade de vida como a melhor característica, seguida de oportunidade de desenvolvimento profissional com 35%. Remuneração e benefícios ficaram em terceiro lugar com 24% e estabilidade com 1%. Como essa pesquisa é restrita ao pequeno número das empresas que se inscreveram, exatamente porque têm algo de bom para apresentar, com certeza o salário apareceria em primeiro lugar se a pesquisa atingisse um universo maior de empregados, tanto das organizações privadas como do serviço público.
Vale a pena ver essa pesquisa, que a revista faz com a assessoria do Great Place to Work Institute, que realiza a pesquisa para a famosa revista norte-americana Fortune e assessora em mais 24 países, além do Brasil. As dimensões pesquisadas são: credibilidade, respeito, imparcialidade, orgulho e camaradagem, envolvendo ética, comunicação, remuneração , benefícios, liderança, relacionamento, avaliação, desenvolvimento profissional etc. Como diz a Carta do Editor, as empresas que se destacam como melhor lugar para trabalhar: “1) têm uma crença genuína de que as pessoas são imprescindíveis para o sucesso do negócio; 2) não se cansam de comunicar, comunicar e comunicar. Assim, permitem que todos influenciem nas decisões que as afetam; 3) conhecem a sua cultura. Isso determina sua fórmula de recrutamento e recompensa. Os benefícios também são desenhados para satisfazer aquele público em especial. Nessas organizações encontramos o casamento perfeito entre a estratégia e a sua aplicação. Entre o que a empresa planeja e o que as pessoas percebem como benefício. Entre a visão do líder e a prática de seus executivos.”
Já se tornou lugar comum nas reflexões e discussões sobre a importância das pessoas no trabalho, dizer que há um abismo entre o discurso e a prática, que entre as bonitas declarações de visão e missão das empresas, e o discurso dos executivos e o que realmente acontece nos ambientes de trabalho existe uma grande diferença. Muitas organizações influídas por consultores vanguardistas adotam eufemismos como “gestão de pessoas”, para dar idéia de administração moderna, mas continuam praticando a mesma administração de pessoal que tem mantido interminável o conflito patrão x empregado. Algumas põem o pessoal para fazer ginástica antes de iniciar o trabalho, outras adotam uma tímida política de participação na administração ou nos lucros, mas ainda são poucas aquelas que avançam naquilo que Abraham H. Maslow chamou de “gerência esclarecida”, onde as pessoas, de fato, se considerem importantes e úteis e se realizem. Diz ele que “pessoas razoavelmente saudáveis em uma organização razoavelmente boa, o trabalho tende a melhorar as pessoas, o que tende a melhorar o setor, o que, por sua vez, tende a melhorar as pessoas envolvidas, e assim por diante. Esta é a forma mais simples de dizer que o gerenciamento adequado da vida de trabalho de seres humanos, da forma como ganham seu sustento, pode melhorá-los e melhorar o mundo...
O autor, Pedro Grava Zanotelli, é administrador e ex-diretor da Faculdade de Ciências Econômicas da ITE.