Leio um texto de Drummond: “Especulações em Torno da Palavra Homem”. Nele, qualquer homem se encontra em toda a contradição que é o viver e o morrer - a cada dia.
Reflito. Discordo da dúvida final: “Existe o homem?” Ora, li o texto e sobre ele refleti, portanto, existo... Algo sou. Algo que tem consciência do que era e que aspira pelo que há de vir.
Sou. E sinto. Sinto a magia da vida que me faz saltar do fundo do vale para o alto da montanha, sem a ajuda de um helicóptero...
Faço e refaço essa viagem, muitas vezes e, às vezes, num só dia. A mola propulsora é meu estado d’alma. E, da alma, cuido eu e sei que ela está lá... Onde? Não importa. Aquela fagulha imperceptível que me torna semelhança me empurra para cima, ainda que o peso de mil cruzes tente indicar destino diverso.
Mas, resisto. E nesse resistir revela-se a centelha da vida. Vida que se renova e que reclama pelo ar, pelo vento, pelo colorido que se descortina do alto da montanha.
Do alto da montanha, ainda que divise o vale fundo em que estava, tenho a visão do todo. No todo, todos os tons: escuros, claros, claríssimos... No todo, todos os sons; ondas sonoras vibrando, do mais grave ao mais agudo, sempre musicais... Do todo, posso captar o mais alegre, ou o mais lamentoso; a cor mais viva, ou a mais tristonha. Detenho os meus olhos e o meu coração aonde quiser... Ali, sou livre.
No alto da montanha meus sentimentos alvoroçados cantam a vida, acolhem a nova vida - uma, em particular - olham para toda a vida que me cerca, que te cerca; que me abraça, que te abraça, na esperança da harmonia universal.
A autora, Maria Antonia Pires de Carvalho Figueiredo, é escritora, membro da Academia Bauruense de Letras e colaboradora do Ju Machado Escritório de Arte.