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Inverter as prioridades


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A estratégia de crescer de fora para dentro, posta em prática, desde o início do governo Lula, deverá ser reavaliada ao longo do último trimestre do ano. É que, embora todas as suas etapas tenham sido cumpridas, os resultados não foram os esperados. Ela previa a combinação da rápida aprovação das reformas previdenciária e tributária, com o controle da inflação e o início da queda gradual dos juros básicos.

Atingidos, mesmo que parcialmente, tais objetivos, o Planalto contava capitalizar os elogios do FMI ao cumprimento das metas acertadas, com destaque para o superávit primário, maior do que o previsto para este ano; além do excelente desempenho da balança comercial, para chamar a atenção dos investidores estrangeiros. Com eles - contava o ministro da Fazenda - , seria possível retomar o crescimento econômico de fora para dentro.

A lógica por trás desse raciocínio é aparentemente simples: se o capital estrangeiro optasse pelo País, por que motivo o empresariado nacional não faria o mesmo? Só que a entrada de recursos externos diminuiu ao invés de aumentar. Até agosto, segundo dados do Banco Central (BC), o estoque de investimentos de fora era de apenas US$ 5,7 bilhões.

Para fechar o ano com os US$ 10 bilhões previstos, serão necessários mais US$ 1,1 bilhão, em média, por mês, no período compreendido entre setembro e dezembro. Mas o BC já anunciou que vai rever, até o fim de outubro, as atuais estimativas para as contas externas, com menor ingresso de capital estrangeiro, e maior déficit na rubrica de transações correntes.

Mas, afinal, o que afastou o investidor estrangeiro da economia brasileira? De acordo com agências internacionais, especializadas em avaliação de riscos: a dívida pública interna, estimada em R$ 877 bilhões, equivalentes a 57% do PIB; e a relação entre dívida externa e o total das exportações anuais.

A comparação com alguns países emergentes é desfavorável ao Brasil nesses dois indicadores. Na média, esses concorrentes do País têm dívidas públicas menores e prazos de quitação mais longos. Além disso, 25% da dívida interna brasileira estão atrelados à cotação do dólar, um risco adicional.

Por sua vez, o segundo quesito de avaliação não é melhor que o primeiro: a dívida externa brasileira é quase três vezes o valor anual das exportações. E o pagamento de juros dessa dívida consome o equivalente à metade de tudo o que o País exporta por ano.

Mas o sinal amarelo - de atenção - para a necessidade de rever, pelo menos em parte, a estratégia de retomada do crescimento, baseada prioritariamente na volta do Brasil ao clube de países emergentes, que disputam acirradamente a preferência capital estrangeiro, foi dado em agosto, quando a taxa de desemprego na região da Grande São Paulo chegou aos 20%.

O governo deveria, no curtíssimo prazo, definir e bancar, em parceria com iniciativa privada, administrações estaduais e entidades regionais de desenvolvimento, obras emergenciais de infra-estrutura, que seriam executadas por frentes de trabalho. Tal política reduziria o desemprego para níveis mais toleráveis. Enquanto isso, selecionaria alguns setores da economia, com maiores possibilidades de geração rápida de empregos, para dar início à retomada gradual e sustentável da economia.

Por último, poder-se-ia reduzir gradualmente o depósito compulsório dos bancos, desde que tais recursos fossem investidos no setor produtivo, e os spreads (diferenças entre custo de captação e de aplicação) fossem gradualmente reduzidos. Tudo isso, claro, sob fiscalização rigorosa do BC.

Dessa forma, os investimentos externos voltariam ao Brasil em menos tempo do que se imagina e o desenvolvimento, tão almejado, seria uma realidade.

O autor, Miguel Ignatios, é presidente da Federação Nacional das Associações Brasileiras dos Dirigentes de Vendas e Marketing do Brasil - FENADVB.

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