Bauru, de uns meses para cá, tem apresentado um quadro caracteristicamente mistura de tristeza, melancolia e, talvez, fuga. É muito antiga e já muito batida, também, aquela frase: “O cachorro é o melhor amigo do homem”, aliás, hoje, também se pode dizer da mulher, não só do homem. Mas, até que ponto se pode considerar amigo alguém que só ouve, não opina, não pergunta, não contesta nem demonstra interesse pelo que se diz? Acredito, sinceramente, que essas pessoas que passam horas e horas em companhia de seu cachorro (pequeno, médio ou grande) sem falar, a não ser imaginariamente, devem ter algum tipo de solidão. Sim, porque há vários tipos de solidão: a solidão do abandono, a solidão do desinteresse generalizado, a solidão do isolamento provocado, a do isolamento voluntário, a dos que não têm família, a solidão dos que sentem saudade, a solidão dos que perderam tudo e nem podem sentir saudade...
Quem tem do que se lembrar, quem tem lembranças, creio eu, nunca está só, nem solitário, mesmo que as lembranças não sejam agradáveis, mas simplesmente recordações. Podem rever fotografias, podem reler cartas, jornais antigos, ouvir rádio ou rever filmes. Quando vejo senhoras, moças ou na terceira idade; quando vejo senhores, moços ou na terceira idade; caminhando plácida e pacientemente monologando, puxando pela corrente seu companheiro canino, vem-me uma estranha sensação que estou tentando invadir uma privacidade (a maior de todas, a do íntimo, do âmago). Será que estou enganado, será que essas pessoas não são mais sábias que eu, preferindo a companhia do “amigo” irracional que não fala mas ouve, que não contesta, talvez por delicadeza ou respeito? A grande verdade é que o número de cães está crescendo cada vez mais nessa nossa Bauru que não é cesto de flores, nem cesto de frutas, mas “rio das águas turvas” (upa uru) e que muitas pessoas, conduzindo seus cães, talvez estejam nadando em águas turvas, tentando achar uma luz no fundo das águas. Talvez, leitor, você esteja pensando: “Será que esse sujeito não tem coisa mais útil em que pensar?” Talvez, depende do conceito que se tenha de utilidade. Para mim, quem tem razão é Saint-Exupery: “É útil porque é bonito.”
José Benedicto Pinto - RG 4.440.349