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Especialistas cobram ações ambientais

Thaís da Silveira
| Tempo de leitura: 6 min

“Bauru é uma cidade sem limites até para a degradação.” A afirmação é do engenheiro florestal Ricardo Leonel D’Ercole, diretor regional do Departamento Estadual de Proteção de Recursos Naturais (DEPRN).

Ele e o engenheiro agrônomo José Alfredo Pauletto Pontes, perito judicial do DEPRN, elencam várias frentes de ataque ao meio ambiente na região de Bauru e avaliam a situação como crítica.

São problemas de poluição, drenagem urbana inadequada, destruição da vegetação ciliar, queimadas e desmatamento, entre outros.

Os especialistas cobram mobilização da sociedade civil e medidas urgentes por parte do poder público. “A questão ambiental não está tendo a devida importância”, agrava D’Ercoles.

Confira a seguir trechos da entrevista concedida pelos especialistas ao JC.

Jornal da Cidade - Quais são as principais agressões ambientais que a região de Bauru sofre atualmente?

Ricardo Leonel D’Ercole - Podemos falar, em especial, sobre a vegetação ligada à proteção dos cursos d’água, que chamamos de vegetação ciliar. Há um desrespeito a essas áreas de preservação permanente, às nascentes e marginais dos cursos d’água. Isso causa todo tipo de problema. O principal é a diminuição da capacidade de abastecimento do nosso principal manancial público - o Rio Batalha. Talvez seja o aspecto mais visível da questão de degradação. Outro problema grave é a questão da drenagem urbana no município de Bauru. Basta chover e qualquer cidadão bauruense percebe os efeitos da drenagem inadequada. Aliada, ainda, à condição do solo. Nós temos um solo bastante arenoso, suscetível à erosão, que é altamente agravada com a disposição inadequada das águas pluviais.

JC - E o cerrado bauruense?

D’Ercole - Bauru é cercada por cerrado, que é uma vegetação desprotegida. Não há nenhuma lei específica que garanta sua proteção. Apenas o Código Florestal. Ele é o grande regulamento para exploração de florestas no Brasil. Só que ele é genérico. Depois, há várias ações específicas porque a vegetação varia de acordo com o lugar. Em Bauru, o cerrado não tem proteção específica. Já a Mata Atlântica tem um decreto que a protege. É uma vegetação importante numa região de crescimento desordenado. Falta planejamento.

JC - O que seria ideal?

D’Ercoles - Uma lei específica protegendo os cerrados, estabelecendo uma regra mais clara e rígida para essa exploração. Também é importante uma ação continuada de educação, aliada à ação punitiva.

José Alfredo Pauletto Pontes Engenheiros apontam frentes de degradação na região de Bauru, como a poluição, e alertam para riscos maiores - Esse problema do Rio Batalha não está só dentro do município de Bauru. Em Piratininga e Agudos, a degradação das matas ciliares é flagrante também. Parece que o pessoal que se utiliza dessas áreas não dá a devida importância. Continuam deixando pegar fogo, não tomam medidas preventivas, degradam indiscriminadamente, começam um serviço licenciável para depois pedir a licença. A sociedade não colabora.

D’Ercole - Outro aspecto importante é a queima da palha da cana. É uma prática criminosa, do século passado. Não dá para acreditar que até hoje, num Estado como São Paulo, se pratique isso. Tem problema ambiental da perda da atividade microbiológica do solo, morte de número infinito de pequenos animais, além da poluição.

Pontes - Principalmente em Jaú, Macatuba, Lençóis Paulista, Pederneiras, Bariri. Estão num mar de canas. Não se faz nada. O poder público fica inerte.

JC - O esgoto em Bauru também é preocupante?

D’Ercole - Bauru joga 100% do esgoto in natura no Rio Bauru. É inacreditável que uma cidade desse porte ainda faça isso.

Pontes - (Joga) no rio e em todos os seus afluentes - Água da Ressaca, Água do Sobrado, Córrego do Capim Fino e outros.

JC - Como vocês avaliam o desmatamento em Bauru?

D’Ercole - É extremamente preocupante. Desmata-se muito ainda em Bauru. Em parte pela desproteção da vegetação e porque tem muita gente ainda que degrada o ambiente de maneira dissimulada. Nem sempre o desmatamento acontece de maneira clássica, enfileirando máquinas. O bosqueamento gradual da vegetação é uma forma de degradação. O efeito final é o mesmo. É uma coisa mais difícil de se perceber e mais difícil de se coibir. Salvo se a população estiver empenhada e cotidianamente fazer valer algumas ações de cidadania.

Pontes - Existem várias áreas de preservação permanente na zona rural de Bauru. São áreas especialmente protegidas, com outra destinação. Ou seja, estão usando área de preservação permanente como pasto. À medida em que o gado pisoteia, impede a regeneração da vegetação natural, da mata ciliar que deveria existir. O pessoal reclama de água, mas não colabora. Existem nascentes que, além de estarem degradadas, a capacidade de armazenamento de água hoje é de menos de 50% do que era num curto espaço de tempo. Estamos falando de 25 anos, no máximo.

JC - O desmatamento na região de Bauru tem aumentado?

D’Ercole - Tem aumentado. O último inventário florestal indica que nas regiões de cerrado aumentou o desmatamento. Não sei dizer números agora, mas tem aumentado. Os municípios em desenvolvimento têm apresentado decréscimo de vegetação ao longo dos anos, apesar de todas as ações de proteção. Não é por acaso que essas áreas são consideradas de preservação permanente. Elas têm uma função importante para proteger o curso d’água e minimizar os processos erosivos nas margens. Quando ao abastecimento, a cada ano temos tempos maiores de racionamento de água. O melhor indicador é não ter água na torneira. A única certeza que temos é que vai faltar água. Se não tomarmos providências, Bauru vai ter problemas sérios de abastecimento. Não só na água superficial como na água subterrânea também. Em quantidade e qualidade.

Pontes - Nesse aspecto de água, diz-se que 50% dos poços subterrâneos de Bauru não estão regularizados. Isso quer dizer que eles são potencialmente focos de contaminação das águas subterrâneas. Ou porque foram mal construídos, ou não foram tomadas precauções para não-contaminação, e assim por diante.

JC - Todos esses problemas são mais graves na área urbana ou na rural?

Pontes - É grave nos dois aspectos. No meio urbano, contaminam as águas. No meio rural, destróem as nascentes.

D’Ercole - O reflexo é sentido tanto na área urbana quanto na área rural. Não dá para dissociar. Se um alimento contaminado é produzido na área rural, ele será consumido na zona urbana. A questão ambiental tem de ser interligada e tratada de maneira conjunta. Se você dissociar, não há ação eficaz.

JC - Que medidas podem ser tomadas?

D’Ercole - É necessário ter ações preventivas mais fortes. Principalmente ações integradas do Estado, dos municípios e da sociedade civil, que tem um papel fundamental. Todos os segmentos devem estar envolvidos. Se a sociedade não participar, seja na vigilância e cobrança dos organismos públicos, não vamos verificar um desenvolvimento limpo, um crescimento ordenado do ponto de vista ambiental. A questão ambiental não está recebendo a devida importância. Fala-se em conscientização, mas as ações estão muito distantes dessa pretensa consciência ambiental da população. Bauru é uma cidade sem limites até para a degradação. É uma cidade que tem feito pouco para conseguir reverter essa situação.

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