Ser

Tentação divina

Luly Zonta
| Tempo de leitura: 4 min

Deus me perdoe e o bispo também, mas ele é jovem, loiro, tem olhos claros, usa piercing, é bonito, culto, gosta de cinema, de balada e de rezar. Este seria o candidato perfeito a namorado se não fosse padre.

As características do bauruense Roberto Francisco Daniel, o padre Beto, realmente chamam a atenção e tem mais: sua missa possui um carisma elogiado por centenas de fiéis.

Conseqüentemente, ele acaba arrancando suspiros. Luzia Brasil, 65 anos, secretária do Bispado de Bauru há mais de 20 anos, revela que o padre Beto é um fenônemo.

“Às vezes, brinco com ele sobre as menininhas que o paqueram. Só na minha academia tem uma turma, que chamo de ‘estelinhas’. Mas ele está sempre firme no seu propósito de fé e sempre responde: ‘reze bastante por mim!’”, revela.

Padre Beto confirma que está muito feliz na sua vocação e avisa à legião de fãs que elas estão perdendo tempo.

“Procuro tratar esse assédio com a maior naturalidade. E fico com dó dessas mulheres cultivarem uma ilusão por uma coisa que no momento não pode acontecer.”

O sacerdote confessa que até agora não passou por nenhuma “batina justa” por conta das paixonites que desperta. Mas revela que fica com medo de alguma fiel um pouco mais “afoita” aprontar alguma coisa ou plantar algum boato que comprometa sua missão ou destrua sua imagem e seu trabalho.

Desentendido

Outro sacerdote que se encaixa no perfil jovial, inteligente, bonito e elegante é o padre Milton César Carraschi, que é apaixonado por tênis e perfumes.

Aos 38 anos de idade e nove de sacerdócio, padre Milton, que nasceu em Itápolis, mas está em Bauru há alguns anos, conta que hoje ficou mais esperto e, às vezes, se faz de desentendido para não criar mal-estar.

Mas diz que já passou por uma situação embaraçosa quando uma adolescente resolveu, em plena confissão, revelar suas segundas intenções.

Padre Milton também teme escândalos e calúnias, mas confessa que nunca perdeu a calma, nem a amizade com as fiéis que dão a entender que querem algo mais ou até enviam cartas.

“Na minha caminhada aprendi a controlar impulsos e desejos e a olhar estas pessoas com certa caridade. Eu entendo o ser humano e por isso não me afasto, mas não fico correndo atrás.”

Ele analisa que em muitos casos, as paixões não possuem conotação sexual. “Tem muita gente mal-amada, carente de afeto e diálogo e quando você dispensa atenção acaba despertando um sentimento”, explica.

Nessa busca, muitas fiéis acabam até se dedicando mais à comunidade e às obras da igreja só para estar perto do padre.

Tarimba

Sem perder o charme e beirando os 50 anos, o padre Nilton Antônio Marques, do Mosteiro do Paraíso, em Torrinha, aponta que o tempo lhe deu tarimba suficiente para lidar com a questão da afetividade.

Ele cuida de uma fábrica de chocolates numa estância turística e está sujeito a um assédio de pessoas descompromissadas, que visitam o lugar. Mas até por esse motivo, acha pouco provável que aconteça algo mais sério.

“Na vida é normal que isso aconteça, uma palavra, um olhar diferente... Mas tudo vai de como você trabalha e vive o celibato. O tempo explica muita coisa”, filosofa o padre que foi para o seminário aos 27 anos e confessa ter namorado muito antes de seguir sua vocação.

“Como fui para o seminário bastante adulto já estava preparado e decidido a viver sozinho. Fiz a minha escolha.”

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Sem apelação

Na opinião do padre Beto, que concluiu há um ano doutorado em ética na Universidade Ludwig-Maximilian de Munique, na Alemanha, tem especialização em cinema, é professor de sociologia das Faculdades Integradas de Bauru (FIB) e de ética na Instituição Toledo de Ensino (ITE), possui cinco livros publicados no Brasil e produz crônicas para o JC, no relato da história de amor entre Estela e padre Pedro na novela “Mulheres Apaixonadas” não houve apelação.

Para ele, a televisão tem obrigação de tematizar circunstâncias da vida real e até criar situações possíveis. No caso do personagem, a conquista até foi fácil por não ser o celibato uma vocação de Pedro, mas sim, um desejo de sua mãe.

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Pessoa mais interessante

As características sonhadas num homem se tornam tão aparentes em alguns padres que as paqueras acabam acontecendo, muitas vezes, sem querer.

Um dos casos é o de uma moça de 30 anos, que, como boa católica, numa manhã de domingo, resolveu ir à missa e chegar mais cedo para fazer orações.

Na movimentação da igreja, um moço alto, bonito, simpático, com roupa descolada e que conversava e distribuía sorrisos a todos chamou a atenção da fiel, que pensou se tratar do líder da comunidade de jovens da paróquia.

“Interessante esse moço. Acho que preciso freqüentar mais essa igreja”, pensou a moça.

Entretanto, minutos depois, ele aparece de batina e quebrou o encanto.

Apesar de não ter se penitenciado por paquerar o padre, consciente, ela afirma que o máximo que poderia ter acontecido é uma paixão platônica.

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