A eleição de Schwarzenegger, tratada com deboche e depois com perplexidade pela imprensa mundial, leva-nos a uma profunda reflexão sobre o triunfo da sedução sobre o racional. Afinal, os californianos elegeram um personagem de cinema. Arrancaram o ator da tela e o trouxeram para a vida real, como no clássico de Woody Allen, “A Rosa Púrpura do Cairo”. Transformaram de vez a política em espetáculo, certamente na esperança de injetar na cadeira de governador de seu Estado as mesmas doses de patriotismo que marcaram a trajetória do ator cujos filmes já faturaram 1 bilhão e 600 milhões de dólares. Na manipulação da opinião pública, da mesma forma que no funcionamento do Estado, as armas da sedução levam a melhor sobre a convicção racional. É o triunfo do mercado sobre a política, dos interesses privatistas sobre o interesse público, da pesquisa de opinião sobre o debate e o voto, da audiência sobre o poder de convencimento, da imagem sobre o raciocínio, da sedução sobre a razão.
O embaralhamento entre ficção e realidade já atingiu tal nível de sofisticação que se tornou impossível separá-la. “A América colonizou nossas mentes” - observou o cineasta alemão Wim Wenders. Essas mentes colonizadas já haviam eleito Ronald Reagan, um galã de filmes classe B cuja única experiência política havia sido uma passagem pelo Sindicato dos Atores de Hollywood. Seu melhor papel como ator foi aquele em que contracena com uma chimpanzé. Na Itália, o chefe de Estado é Berlusconi, uma espécie de Roberto Marinho que ainda não morreu, mas é o dono dos canais de televisão. No Brasil, Lula seduz pelas metáforas, como se a vida fosse um eterno churrasco. A falta do dedo perdido pelo ex-operário é sempre mostrada na TV para convencer o povo da necessidade de salvar “o miolo da picanha”. Na verdade, o bolso do contribuinte a ser assado em brasas, mais uma vez.
Como Scharzenegger é austríaco de nascimento, um senador vai propor emenda constitucional permitindo a eleição de estrangeiros naturalizados a fim de que o ex-Mister Universo possa igualar a mesma performance de Reagan.
O mais curioso dessa história é que os californianos, decepcionados com a apatia do governador Gray Davis, acionaram a lei que permite cassá-lo mediante abaixo-assinado de 16% daqueles que o elegeram. É o que eles chamam de “recall”. Seria o mesmo que o eleitorado de Bauru resolvesse catapultar Nilson Costa, sem sequer dar bola para a Câmara de Vereadores, e colocar o Sapé no seu lugar. O “recall” na Califórnia nem dá direito a liminar. É um ato político que se aproxima muito da democracia direta ainda exercida em alguns cantões suíços. A população reúne-se em praça pública para julgar o administrador. Se a maioria levanta os braços concordando em retirá-lo... hasta la vista, baby.
Pensando bem, o Sapé seria uma solução até melhor que a do Schwarzenegger. Em primeiro lugar, o nome é mais fácil de guardar. Em segundo, nunca apalpou, apertou, passou a mão, beliscou a bunda ou tentou tirar peças de roupas das mulheres, sem que elas permitissem - pelo menos até hoje nenhuma delas apareceu para reclamar. Jamais elogiou Hitler ou qualquer fascista menor. É muito mais politizado e tão forte quanto “Conan, o Bárbaro”. Seria capaz de resolver suas pendengas com a Câmara no tapa e sem a necessidade de demoradas comissões especiais que depois viram processantes para depois dar em nada. A realidade virou ficção. O Estado-cidadão foi superado pelo Estado-sedução, que é ainda mais conservador. Se viesse imbuído daquela vontade apresentada pelos “mocinhos” na tela de distribuir justiça, ainda teríamos o que festejar. Na sociedade de mercado tudo se vende, tudo se compra. O Estado começa a se deixar aprisionar pelo aparelho ideológico midiático, inspirado na pesquisas quantitativas de opinião. Se a partir das comunidades não adotarmos a saída californiana do recall que nos possa dar o direito de defenestrar todo governante sem roteiristas competentes, fracasso de crítica e de público, seremos exterminados no futuro. (O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC)