Cultura

Caminhos da cultura

Gustavo Cândido
| Tempo de leitura: 8 min

Depois de quase um mês afastado do cargo devido à cassação do mandato do prefeito Nilson Costa - que recuperou o posto provisoriamente na última semana na Justiça - o secretário municipal de Cultura, Sérgio Losnak, voltou à sua cadeira retomando o caminho traçado ainda em 2000, quando foi escolhido para a pasta.

Agora, porém, sua situação é instável. “Há possibilidade de sairmos do governo a qualquer momento”, diz, consciente. Mas isso não deve atrapalhar o andamento da secretaria, garante Losnak, em uma entrevista concedida ao JC um dia após o seu retorno oficial ao posto. A seguir, estão os melhores trechos da conversa na qual o secretário fala sobre a nova Lei de Estímulo à Cultura e as dificuldades do setor, entre outros temas.

Jornal da Cidade - Em que a situação instável de todo o secretariado atual afeta o seu trabalho na Cultura? Sérgio Losnak - Na prática isso não muda muito as coisas, nós vamos continuar seguindo as diretrizes que foram traçadas antes, nossos objetivos em todos os projetos. Houve uma interrupção, há possibilidade de sairmos do governo a qualquer momento, mas a linha de trabalho e as ações vão continuar como se nós fossemos até o ano que vem. Hoje (quinta-feira) tivemos uma reunião sobre isso e todos os projetos, discussões, estão sendo retomados. A partir de segunda-feira (amanhã) tudo passa a ser como era antes da interrupção.

JC - Como você avalia a aprovação da Lei de Estímulo à Cultura votada pela Câmara na última semana? Losnak - Eu acredito que a aprovação dessa lei foi uma luta, mas tão importante quanto essa aprovação é colocar a lei em prática. Já existia uma lei no município que nunca entrou em prática por sua falta de funcionalidade. Eu diria que a aprovação dessa lei é um enorme avanço para Bauru na área cultural. Depois da criação de uma Secretaria Municipal de Cultura, a lei seria o segundo passo mais importante da nossa cidade na área. É um avanço, é uma lei que vai estimular uma produção que muitas vezes não é percebida por aqueles que investem em cultura. São projetos que não dão retorno de marketing, aquele tipo de arte que é importante para a transformação, para a formação de um determinado grupo da sociedade. A lei vem estimular isso, aquele tipo de arte que sem o investimento público você não conseguiria viabilizar.

JC - A lei abrange todas as áreas? Losnak - Inicialmente ela era a Lei de Incentivo Cultural, demos uma redirecionada nela, que estava nos nossos projetos há algum tempo. A lei é complexa e requer um preparatório que já começa no mês que vem para que possa funcionar a partir do próximo ano. Nós vamos fazer uma audiência pública para explicar para a comunidade artística a lei, qual o seu formato e como eles devem proceder para elaborarem os projetos e serem beneficiados. O importante é que ela abrange todas as áreas. A comissão que será formada para avaliar os projetos vai estar atenta para direcionar os recursos para aquilo que não conseguiria ser feito sem apoio.

JC - Como funciona hoje? Losnak - A secretaria recebe muitos projetos hoje, só que nós não temos condições e nem amparo legal para investir recursos públicos por exemplo, na montagem de um coral de jovens numa comunidade. É difícil uma empresa investir nisso. Então a nova lei vai privilegiar esse tipo de ação. Nesse mesmo exemplo, um coral daria perspectiva para um certo grupo social ter acesso à música tendo continuidade no trabalho - que é uma das coisas que a lei prevê. É interessante lembrar que a cada semestre uma comissão diferente vai escolher os projetos. Essa mudança vai dar uma diferença sutil na maneira de se ver os projetos, de maneira que se possa ter uma gama maior de projetos com objetivos mais amplos. Lá para outubro ou novembro do ano que vem eu acredito que a cidade vai estar sentido o pulsar desses projetos aqui e ali, em diversas áreas. Isso depois vai permitir que esses projetos extrapolem os limites de Bauru. Por exemplo, um livro editado, ele não vai ficar só em Bauru; um concerto, um encontro de rap que pode trazer pessoas de fora, um show musical... Tudo isso tem um alcance e uma contrapartida social.

JC - O que é mais difícil quando o assunto é cultura em Bauru? Losnak - ... Trabalhar com cultura é difícil, não só na secretaria, mas também nas casas de show, no mundo todo imagino que não seja fácil. Primeiro porque o conceito de cultura não é muito delimitado, existem muitos equívocos conceituais. A prática cultural é ampla e quando se transfere ela para uma secretaria de cultura ela acaba sendo direcionada à prática artística, que vai fomentar a cultura. E dentro da própria arte existem muitas nuances... Então a questão mais complicada nessa área é trabalhar mesmo, como implantar uma ação, como contar com a percepção de uma comunidade diversa num país que tem uma cultura de massa muito forte, o que muitas vezes proporciona uma dificuldade ainda maior de se promover ou de se pensar a cultura.

JC - É possível satisfazer tantos grupos diferentes: músicos, atores, bailarinos, artistas plásticos, artesãos, escritores...? Losnak - Essa divisão de áreas ainda é otimista porque dentro de cada uma dessas áreas existem subgrupos que têm entendimentos completamente diferentes. É muito difícil lidar com isso. Este ano nós discutimos muito isso, a organização da comunidade artística. É fundamental essa organização porque para nós, como poder público, é muito mais fácil conversar com uma categoria as linhas de ações. O que a gente ainda observa na cidade - apesar de haver um avanço lento - é a falta de organização entre eles, talvez até por falta de amadurecimento. A cidade tem uma produção artística diversificada e bastante grande mas, ao mesmo tempo, há uma falta de perspectiva que provoca a não-organização. Em algumas áreas isso é até compreensível. Por exemplo, o artista plástico é uma pessoa que tem uma relação com o trabalho individual, ele tem um momento único de produção, então a sua relação com os demais às vezes é difícil. Agora entre os trabalhos coletivos como teatro, música, quantas são as organizações em Bauru? Essa questão da organização é importante, tanto que na lei prevemos que só as pessoas jurídicas podem inscrever projetos. Este ano nós fizemos discussões sobre cooperativismo e associativismo, pelo menos para as pessoas saberem o que é isso. Muitas vezes as pessoas trabalham na mesma área e nem se conhecem. O que a gente queria discutir era essa integração e talvez até uma forma de gerar um mercado de trabalho um pouco mais concreto, como uma cooperativa, uma associação, que tenha um advogado, que tenha artistas de várias áreas, que possam existir trabalhos coletivos com cada um dentro de sua especialidade.

JC - Bauru não tem muitos grupos organizados... Losnak - Existe pouca coisa em Bauru, os corais, por exemplo, estão um pouco mais organizados por causa da Associação Paulista de Corais na cidade, mas no teatro não há organização, na música também não. A gente até percebeu um movimento quando houve a questão da Ordem dos Músicos - é aquela coisa do grupo se unir para uma causa específica - mas depois passou. Já, por incrível que pareça, o hip hop na cidade é organizado. Fizemos um disco junto com o Quilombo com as bandas de hip hop e realizamos um encontro estadual. Mas é uma das nossas dificuldades não existirem tantas organizações para conduzir as questões.

JC - Até que ponto o público bauruense colabora para que as atividades culturais sejam bem sucedidas? Losnak - Uma das nossas grandes preocupações sempre foi a formação do público. No teatro, por exemplo, se você traz algo ruim pode criar uma aversão na pessoa que pode questionar: “isso é teatro?”. É claro que gostar e não gostar de alguma coisa é comum, até para a pessoa construir um conceito. E essa diversidade precisa ser mostrada para que o público saiba diferenciar as coisas. A nossa meta inicialmente foi formar o público no que diz respeito ao teatro porque não tinha um na cidade. Hoje, nesse caso, trabalhamos com duas linhas: investindo no jovem, trabalhando com a rede pública municipal, que conseguimos trazer para ver, pelo menos, um espetáculo infantil por ano. Eu acredito que daqui há alguns anos essas crianças vão ter uma relação muito mais íntima com a arte, com o teatro, por ter conhecido isso cedo. Outra linha de formação de público é criar uma diferenciação entre o que é o comercial e o que é um pouco mais profundo, que provoca o público e faz ele pensar e não só dar risada. É claro que existe a questão do dinheiro, o que é mais barato mais pessoas podem ver, mas nem sempre é assim. Nós tínhamos o projeto Cena Aberta, com peças não-comerciais que muitas vezes eram melhores do que as comercias, e as apresentações eram gratuitas todo mês. É engraçado mas nem sempre tinha muito público. Passamos a cobrar R$ 3,00 e o público aumentou, por incrível que pareça. Com esse projeto conseguimos formar um público que vem para ver as peças não atrás de um artista famoso, mas atrás de conteúdo, de teatro mesmo.

JC - Reunir tantos espaços distintos num só lugar, como no caso do Centro Cultural, é positivo? Losnak - Hoje o Centro Cultural tem uma gama de pessoas que o freqüenta muito grande. A gente vê que todo dia que a movimentação é grande. Um menino vem fazer uma aula, mas acaba vendo uma exposição, faz uma pesquisa na biblioteca... Esse equipamento (o Centro Cultural) para a cidade foi um avanço.

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